Os Anjos não se Apaixonam

1

Os Anjos não se apaixonam

Delírios de um enamorado

2

Ao olhar belo e profundo de Helena,

que por meio da guerra

trouxe paz ao meu inquieto coração,

e me mostrou que Pégasus

pode ser uma transcendência

para além dos sonhos triviais do cotidiano.

3

Introdução_______________________________________

Dimidium animae eius

Paixão. Se você não passou por isso, com certeza, um dia qualquer

destes, será acometido pelo maior delírio humano. Não falamos dessa

paixonite ou de um gostar muito do outro. Falamos dessa força

descomunal que nos arrebata do cotidiano e modifica para sempre o

nosso ser. Falamos da paixão que nos faz cometer as mais loucas

ações e que nos parece que um outro de nós mesmos se apossou de

nossa alma. Aquela em que o desespero e a sensação de abandono

absoluto tornam-se o nosso estar-no-mundo. Nada além da presença

do outro nos tranqüiliza. É o inferno. Vontade de morrer. E mesmo de

matar. Falamos da paixão que nega a racionalidade, que beira a

barbárie e nos faz entender um pouco mais nossas carências e

fragilidades, que nos desvela e revela toda a miserabilidade da

condição humana. Sempre que uma relação afetiva chega ao fim,

ficamos nos perguntando o que fizemos ou então o que deixamos de

fazer. Pois não era para ser eterno? Para todo o sempre, amém?

Assim, uma enorme sensação de fracasso, de abandono e de não

aceitação toma conta de nós. E na tentativa de apaziguar essa dor,

buscamos desesperadamente respostas em tudo o que podemos.

Vamos da lógica-racional ao esoterismo, passamos pelo religioso e

por toda a sorte de mandingas. Torna-se necessário saber para

4

compreender. Mas nem sempre conseguimos. Muitas vezes, ao

retornar ao tempo da relação, sentimos inextricavelmente que não

éramos nós mesmos a viver tal intensidade de emoções. Parece-nos

que um outro de nós mesmos protagonizou essa história. Eu me vejo,

mas pouco sinto. A impressão de que tudo se passa como num filme

mal gravado. Isso porque as imagens nos parecem cifradas e mesmo

seletivas. As dores de amor são, para a imensa maioria, um marco de

mudanças, algo que passa a nortear a trajetória de todos os

enamorados. Especialmente daquele que ficou. Quem fica necessita

reconstruir os cenários em ruínas. É o mais pesaroso e penoso

empreendimento. Como uma bricolage, resta juntar os pedaços

díspares e compor nova vida. O que fica também espera. E como ser

da espera, sua vida gira em torno do movimento do outro. O seu

tempo não mais lhe pertence. Criando e idealizando situações em que

o outro volte, sua existência não encontra em nada mais um porto

seguro. Está a deriva e propenso há inúmeras tempestades. Por isso

não faz nada. Espera. O e-mail que não chega, o celular que não toca,

a campainha que parece não funcionar. Não sai mais – pois o outro

pode aparecer a qualquer momento -. Enclausura-se. Mesmo porque

nada fora parece lhe seduzir. A imagem do outro assoma-se como

verdadeira assombração. Aonde vai e o que vê traz com força a figura

do outro. Torna-se um mar de destroços. Aquela música, aquele

perfume, aquele filme, aquele lugar. O tempo parece mesmo congelar

as cenas. Como um predador implacável a imagem do outro o

persegue em todos os lugares e em todos os momentos, apenas

aguardando para se presentificar e provocar um longo pranto. Choro.

A impotência é total. Humanamente não se consegue lutar contra essa

5

tormenta. É uma sensação que põe à prova todas as nossas

fragilidades. Sou e estou exposto. Miserabilidade. Num momento

passo de uma euforia, de uma possível volta do outro para uma

depressão ao pensar no “nunca mais”. O ciúme aflora. E a raiva

também. Nada me interessa a não ser o que se refere ao outro. Busco

nos amigos em comum alguma coisa sobre a vida do outro. E nada

parece satisfazer. Ligo e desligo o número de seu telefone várias

vezes ao dia. E uma angústia cresce como cogumelos depois da

chuva. Estou perdido. Nada do que dizem, surte em mim qualquer

efeito. Dizem sempre: “É assim mesmo”; “Vai passar”; “Outra pessoa

vai aparecer”. Nada resolve. É uma prisão e estou estigmatizado como

prisioneiro. Todo o esforço em sair redunda em nada. Luto uma

batalha perdida. Não transcendo. Sou, nesse instante, apenas a

realidade e jamais o sonho desejado. E se me fosse possível eu diria

como

boca, minha alma repasse em ti.

Diderot: inclina teus lábios sobre mim, e que ao sair de minha6

Me leve

naquela manhã de domingo

iluminada e colorida

numa alegria inesperada

de uma presença ansiada.

Me leve

naquele olhar que vaga

bem acima dos momentos

desejados

e que fotografam todos os

caminhos

de um destino.

Me leve

quando tua alma estiver

com amor transbordando

e queira abraçar o mundo

e suas pessoas todas,

movida pela compaixão

e pela compreensão acima

desse cotidiano.

Me leve

na noite dos sonhos realizados

quase que magicamente

como uma possível intervenção divina

por ter desejado tanto.

Me leve

quando tua mão estendida

cansar da solidão impossível

e perceber que apesar

da multidão

um vazio imprevisto se aproxima.

Me leve

quando a luz da lua invadir teu quarto

como fosse um dia anunciado

clareando os muitos objetos

e também teus desejos tão bem guardados.

Me leve

mesmo sem querer

distraída na vida

Me leve,

nem que seja somente

no seu esquecimento.

7

Parte I

Delírios de um enamorado

Um poema de

multidão, outra parte estranheza e solidão.

negação, é algo inerente ao nosso ser. A liberdade começa pela

invenção dos desejos e se configura plenamente na tentativa de

realizá-los por meio das ações. E parece ser nisso que reside a magia

da vida, o encantamento e o eterno admirar-se perante si mesmo e

perante o mundo. Parece sempre existir um outro de nós mesmos que

se faz no desejo da vida.

Morri num seis de novembro durante um almoço. A tua despedida foi

solene e bem formal, pragmática mesmo. Lembro que nenhum

músculo do teu rosto se moveu enquanto você desaparecia. A imagem

que me ficou foi da personagem andróide do filme

Pela beleza e pela ausência de algo humano. Sentado ali e segurando

um garfo, senti o peso em demasia daquele momento. Mas o que me

sacudiu não foram as palavras, mas teus olhos. Um olhar quase

inumano e vazio. Neles percebi que você já não estava ali. E me seria

impossível acrescer vida àquele olhar. E que você estava indo para

sempre. Eles me pareceram viver novos amores, outras histórias.

Impossível recapturá-los. Algo se perdeu para sempre. E eu fiquei,

garfo na mão, esperançoso por uma possibilidade qualquer, que

nunca veio. Lembrei de

em cinza, em pó, em sombra, em nada.

Ferreira Gullar dizia assim: Uma parte de mim éSomos nossa própriaBlade Runner.Gregório de Mattos: tudo vai acabar em terra,Era isso mesmo. O fim último8

de tudo. E eu desabei. Fiquei com as lembranças e a saudade.

Companheiras inseparáveis. Sempre achei que as escolhas na vida

deveriam vir acompanhadas de boa dose de amnésia. Assim,

sofreríamos menos. Não recordar é também não ritualizar. E não

ritualizar é esquecer. Mas como apagar uma cena que se assemelha à

própria vida? E que se repete incessantemente, independente do meu

querer? Parece a eternidade de uma imagem que não se dissolve.

Uma maldição do

ainda me olham, como se me condenando ao inferno. E me parece

uma luta insana. Sou corroído pela ausência e nem sequer consigo

elaborar situações capazes de entender e aceitar as coisas. Meu

corpo todo só deseja você e a ansiedade cresce a cada momento.

Mas como podemos convencer o outro que ele é imprescindível e

insubstituível? E que a paixão não é somente a união de duas

pessoas. Que parece necessitar de um sim- do-além – ao menos é

assim que vejo – para que as coisas aconteçam. E quando elas

acontecem temos a pretensão de querer para todo o sempre. Maldita

sensação de eternidade que brinca com nossa transitoriedade e expõe

toda a nossa frágil existência. Qualquer quebra ou ruptura desse

processo e estaremos prostrados ao sofrimento. É assim que me

sinto. Triste e melancólico como a imagem solitária de

incapaz de enfrentar os moinhos-de-vento. Onde estará você agora,

com seus olhos vazios? Tua imagem ainda presentificada embaraça

meu cotidiano e me faz desejar sua volta. Desde seis de novembro,

pareço um mutante, à espera do que não pode ser esperado,

desejando o impossível e morrendo um pouco mais a cada dia sem

você. Porque fui me apaixonar por você? E por que a paixão é o

Eterno Retorno nietzcheano. Teus olhos vaziosQuixote. E9

paradoxo entre o êxtase e a morte? A sensação de um vazio

existencial é inexorável. É jogar um jogo que se acredita perdido.

Então para que continuar? Porque acreditamos que podemos alterar

esse resultado? Parece-me uma insistência bestial, talvez com o

intuito de que possamos apaziguar essa situação. Não por acaso a

paixão passou a ser designada pela história como o estágio infantil do

amor sendo, portanto, algo que se encontra na esfera do profano, do

mundano. Puro desejo humano, mais carnal e destituído muitas vezes

de um Logos, portanto, postulando até mesmo, certa irracionalidade.

Já, o amor adquire o status de fase adulta do ser. É o ponto de

chegada, cuja largada se deu com a paixão. O amor é aceito como

sagrado. Essa sacralidade foi definida historicamente segundo a

tradição religiosa. A paixão desnorteia, quebra paradigmas, modifica o

status quo social, é efêmera, e por não ser entendida como sacra, é

inclusive, às vezes, associada aos feitos do demônio. Já o amor é

apregoado como eterno. Assim, o dizer “eu gosto de você” não porta o

peso de um “eu amo você”. Amar alguém implica socialmente uma

necessária teleologia, isto é, um fato que aponta para um fim

determinado, um projeto de futuro. Implica também um feito de

proximidade com o criador.

de Deus para com o homem foi seu amor infinito. Por isso o

sacramento do matrimônio é oficializado com uma aliança. A aliança

simboliza justamente a aliança que se estabelece no amor em nome

de Deus. Daí utilizarem o ouro – pela durabilidade – e não outro

material. Gostar de alguém, por outro lado, não implica

necessariamente selar o destino. Gostar gostamos de coisas também.

Gosto do meu amigo, do meu cachorro, de um filme qualquer. E gosto

Santo Agostinho dizia que a maior dádiva10

de você. Mas gostar e ser gostado não nos parece suficiente.

Queremos e desejamos estar acima do gostar das coisas. Assim a

busca da certeza de que o outro me ama constitui o mote de toda uma

vida. Quero e preciso dessa certeza para poder inclusive estabelecer

um sentido mais preciso, ou menos conturbado da própria vida. Essa

certeza cartesiana passa a ser, em certo sentido, a grande obsessão

de todos nós. Mas em vão. As relações humanas nem sempre são

mediadas por aquilo que as pessoas sentem. Quando pequenos,

percebemos rapidamente, com um certo trauma, que não é bom

expressar exatamente o que sentimos e como sentimos. Instaura-se

assim uma espécie de jogo. Não digo efetivamente o que penso e os

outros, por sua vez, tomam a parte como um todo. O problema se

acirra quando adentramos o campo afetivo- emocional. Quase nunca

posso precisar se o outro está mesmo dizendo a verdade sobre seus

sentimentos. Por isso, a sensação de que nunca fui amado quando as

coisas terminam. O outro enganou-me o tempo todo. Nas palavras,

nos gestos, nos carinhos. Nessa medida é que procuramos

desesperadamente decodificar mensagens – consideradas – cifradas

que ficaram. E muitas vezes, mesmo não sendo nada, digo para mim

mesmo que havia sinais da mentira do outro. E fico pensando como

pude ser enganado por tanto tempo e não perceber as mínimas pistas.

O fato é que os sentimentos também acabam. Acabam? Sim. Essa

constatação é arrepiante e nos fragiliza a ponto de não aceitarmos

essa condição dada. Como é possível as emoções mudarem

independentes do meu desejo? Parece-nos uma brincadeira mórbida

do destino. Como uma ampulheta virada, cujo tempo escoa a

esperança da mínima possibilidade de se reverter tal presságio.

11

Acreditamos que as coisas em nós – especialmente os sentimentos –

só acabam segundo nossa vontade e nosso querer. Nos sentimos,

muitas vezes, senhor de todas as ações e assim acima do bem e do

mal. Acreditamos ter o controle absoluto da vida e das pessoas, e

também de nós mesmos. Pura pretensão. A ilusão do pragmatismo.

Sem mais, tudo foge desse controle e nos vemos desesperados e

angustiados ante os novos fatos.O amor é bélico. E nega essa

tradição ocidental-cristã. É o sentimento que nos remete aos mais

obscuros labirintos do nosso eu. Muda, desarruma o cotidiano e como

um

ficamos nós, lambendo as feridas que demoram ou mesmo nunca

cicatrizarão. E mais. Ficamos nos perguntando aonde foi e o que foi

que fizemos. A certeza da partida do outro gera em nós uma certa

incerteza de que essa atitude não é eterna e que em breve o outro

voltará. E não apenas voltará, mas voltará trazendo o peso de um

imenso arrependimento. Pretensão. Achamos que o outro não seguirá

sem nós. Que jamais será feliz ou realizado. Afinal, não sou eu o

centro do mundo? Então como esse ser objeta abandonar seu norte,

sua suprema felicidade? Mas ele o faz. E uma sensação de perda se

apossa de mim. Abandono. Não fui criado para ser rejeitado, nem sei

lidar com isso. Nasci para ser amado. Angústia. Um maldito vazio se

apossa de minha alma e do corpo também. O corpo fala. E ele grita. O

outro me falta.

não quem ama. Sinto falta da beleza – é o que acho – do outro. Tudo

torna-se momentaneamente um borrão.

cantava

de cor. E uma noite se impõe. Um medo ancestral toma conta de meu

daimon socrático, parte com a mesma rapidez que chegou. EPlatão dizia que quem precisa da beleza é o amado eAs Cores de Abril comoVinicius de Moraes já não brotam na minha retina. Ausência12

ser. Um sentimento de indefesa ganha proporções gigantescas. Sou o

último dos mortais. Mergulho na escuridão como

Orfeu em busca deEurídice

quero o erro e tento resistir em não olhar para trás. Mas a tentação de

tudo arrumar é grande e não resisto. Junto os cacos da memória e

tento colocar ordem no Caos e impor a lógica cartesiana nisso tudo.

Penso. Conhecendo como conheço o outro….Mas não conheço.

Ninguém pode conhecer. Nem ele mesmo pode se saber. Essa foi e é

a grande armadilha. O postulado de pretender conhecer a si e ao

outro.

do conhece-te a ti mesmo, seria aceita-te a ti mesmo. Perdido. Não sei

juntar pedaços. Remontar o

Cego. Uma cegueira saramagodiana parece dominar esse cenário em

ruínas. Uma grande confusão reina. Misto de dor e morte. Como

. Tudo a perder e nenhuma promessa de elevação. NãoFoucault a apontava como a grande miséria humana: ao invésFrankstein, me é de todo impossível.Freud

em mim, pois ele é um

Decifrar ou morrer. Desejo a morte. A vontade de repouso absoluto.

Estou estóico. Nada deve abalar essa ataraxia pretendida. Declaro

guerra às paixões. Nunca mais, nunca mais, ouço o grito do corvo da

história de

cadela Baleia da obra de

continuar. Não há caminho. Como não há saída. O espírito de

escreve, necessito de um luto. É preciso matar o outro que estáalien que com certeza vai me devorar. Enigma.Edgard A. Poe. Exausto como um retirante – talvez como aGraciliano Ramos – não consigo sequerÍcarocada vez mais distante. Não há as asas e nem a prudência de

Dédalus.

Labirintos. Quero o caminho reto, límpido e ensolarado. Ideal. Sofro

com minha própria criação. A criatura se rebelou e se foi. Mitologia.

Quero um castigo exemplar. Que o outro morra por não me amar e por

Apenas uma vaga lembrança que não me faz recomeçar.13

me fazer sofrer. Mas antes, é preciso matá-lo em mim. Só que isso

implica também matar parte da história que é parte de mim. E não

quero morrer junto. Olhar. Vejo a figura do outro em toda parte e ela

parece multiplicar-se insistentemente. Lembro da frase do

espelhos e os homens são abomináveis porque reproduzem o ser

humano.

Mesmo no que não vejo. Assombro. Já não sei distinguir o real do

imaginável. Uma grande batalha se instala: entre o que quero e desejo

e o que posso e tenho. O outro ganha dimensões metafísicas. E eu

desejo a dialética. Um espectro ronda à minha volta.

a língua dos anjos

anjos?

expressá-lo na linguagem humana. O indizível. E não dizê-lo é a

impotência de ressignificá-lo. Impossível. A missão torna-se sacra.

Desvelar Deus parece mais fácil. Sou aquele que sou. Fico com a

circularidade do discurso. Não sei refutá-lo. Se ao menos eu pudesse

pensá-lo, ele poderia se tornar real. Mas o que se me impõe é tão

somente a aparência e não sua essência. Tempo.

do mundo

não espera ninguém.

Desesperar é a saída. A tragédia é criadora da forma. Trágico como

os heróis gregos, presos a um destino implacável. Nada se fará contra

isso. A imagem do outro não será facilmente destruída. O

Borges: osComo um ectoplasma, ela se manifesta em tudo o que vejo.Ainda que eu faleCorinthios. Qual é mesmo a língua falada pelosQuerubim. O outro já não me é corpóreo. E não consigoTemos todo tempo. Engano. O tempo não pára no porto, não apita na curva,Não há tempo, como não há esperança.eidolongrego se impõe. Olhar a medusa de frente, sem o espelho salvador de

Perseu

nenhum caminho. Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao

caminhar. É preciso o primeiro passo. Mas me parece impossível. Não

. Sou estátua. Não consigo seguir em nenhuma direção e em14

tenho pernas, braços, corpo. Estou etéreo. Sou só olhar. E só vejo o

que preciso. Nada mais. E nada demais. O outro. Sempre

extremamente resplandecente como uma imagem sacra. Não pensá-lo

é profaná-lo. O inferno se instala.

paz. Inveja. Os ursos hibernam todo o inverno. Quatro meses de cura.

Talvez mesmo não acordar mais. Sonho. Como

obcecado por Charlotte. Tudo em Charlotte, qualquer gesto, qualquer

pensamento é puro amor. Sem o outro nem o sono é possível. Desejo

desesperadamente esquecer. Mas a deusa

não me permite.

e acordar. Limpo como um banho depois da praia. Onde está você

agora, além de dentro de mim? Ciúme. Tomo posse do outro. Ele é

minha possessão. Nada mais. Não vou para dividir. Vou para consumilo.

Ele é o alimento da minha necessidade. Amo o que preciso. Como?

É isso sim. Enquanto o outro suprir minhas necessidades e carências,

eu permaneço. Depois não mais. O problema é que o outro quase

sempre vai embora antes de eu tê-las suprido. E uma desordem se

instala. Fico a pensar em quem pode supri-las na ausência do outro.

Egocentrismo. Sou

Nada, nem ninguém interessa. Quero e preciso suprir essas carências.

Volto-me contra o criador. Se não era para ser, porque permitiu que

acontecesse? Nego o ator histórico. Mais uma vez o destino: se eu

não tivesse ido àquela festa, àquele bar, se não houvesse saído

naquele dia, não tivesse ido à Igreja, isso não teria acontecido. Maldita

hora em que lá estive. Mas não fosse o outro dessa maneira, não

poderia ser outro de outro modo? Quem pode garantir? Ninguém.

Talvez nem o criador. Desejo. O outro, bem que poderia, um dia

Um girassol sem sol…Ira! Não háWherter, souMinemosyne (memória)Brilho eterno de uma mente sem lembranças. ApagarNarciso e só enxergo o lago e a minha imagem.15

desses, aparecer e esclarecer tudo. Mas por mais que espero – e sou

o sujeito da espera -, o outro nunca aparece. Como

tapete interminável. Noites e dias que apenas se acumulam. Não faz

sentido algum. Absolutamente nada faz sentido. Vivo um

estranhamento. O que me era familiar deixou de sê-lo. Nem eu mesmo

me reconheço da mesma maneira. É como se entre o meu eu e o

mundo houvesse um terceiro.

mundo. O fato é que não interajo com o mundo. Nem com ninguém. E

nem comigo. Eu ferido de um modo que parece nunca mais sarar. A

paixão é a doença de uma dor só. Patologia incurável.

dizem sempre. Mas parece que não. Como um afogado, busco

desesperadamente uma lufada de ar. E como afogado, sou levado

pela correnteza na incerteza da cachoeira. Onde estavam meus botes

salva-vidas. Ao ingressar nesse cruzeiro de você, não fui avisado de

sua necessidade. Iceberg à vista. Nada a fazer. A não ser nadar

contra a, corrente…e morrer afogado. O conforto da cabine pelas

águas gélidas. Meu corpo não resiste. Gelado, sonho com a cabine

quente e aconchegante. Mas já não é possível. O outro se torna cada

vez mais distante e torna-se apenas um simulacro de si. Titanic.

Afundou um sonho. E uma história. A minha história. Queria ser como

Penélope teço oPeirce. Semiologia das mediações doVai passar Adão

fato é que me sinto um ser sem futuro. Não consigo ver o amanhã.

Parece não haver nada além desse mísero instante. Não consigo me

ver e me elaborar para além desse abismo. Sou apenas um cadáver

ambulante. Volto à natureza: sem vontade e agindo mecanicamente.

Tudo torna-se doloroso. Como

imensa. É o que me resta. É o que fica. Onde pus eu o desejo?

: um homem sem passado e, portanto, sem lembranças. Mas oAbraão indo sacrificar o filho. A dor16

Desidere. Um homem sem desejo não é humano. Sinto-me um ogro.

Sou um bicho qualquer que sequer sabe que existe. Portanto, não

pensa, não abstrai e nem sabe de si mesmo. Dasein. Não sou um seraí.

Queria ser um ünbermasch nietzscheano. Mas me falta algo. Ou

tudo. Não supero a dor, não estabeleço um luto, não creio mais em

nada. Niilismo. Uma sensação de fracasso absoluto se apodera do

meu ser. Sinto-me incapaz. Perda. Não sei lidar com isso.

Culturalmente fui criado para vencer sempre. Agora fiquei com pena

de mim mesmo. Um desgraçado, um abandonado. E ninguém parece

se importar. É como se fosse algo patológico na civilização. Começo a

entender a máxima: dor e amor. Dor de amor só se cura (se curar)

com o tempo. Mas se o tempo parece não passar o que fazemos?

Como acelerar isso. Relatividade. Apelo a

quântica, mas não entendo nada. A máquina do tempo é apenas uma

velha utopia. E eu necessito dessa e de outras utopias. A morte das

utopias não pode se efetivar para todo o sempre. Não quero a pósmodernidade.

É preciso que o outro volte. E transforme minha vida

para todo o sempre.

O desequilíbrio emocional que nasce de uma separação torna-se o fio

norteador das futuras ações do sujeito enamorado. Para além do

abandono emerge uma imensa sensação da impossibilidade de um

dia ser feliz. Como um desgraçado expulso do paraíso – oh! Adão –

não consigo antever um projeto de retomada do sentido da vida até

então estabelecido. Alguma coisa ficou fora da ordem. E não sei lidar

com o inusitado. Não consigo criar situações ou nem mesmo

momentos capazes de me redimir desse hecatombe. Sofro pela

ausência do outro e sofro por estar sofrendo tanto pelo outro. E uma

Einstein, a mecânica17

pena de mim mesmo aflora e martiriza. Minha chance de felicidade foi

embora. Sinto-me fadado a ser um mero espectador de minha vida.

Sou o satélite que circundava o mundo. E o mundo – que é o outro –

foi embora. Não resta mais nada. A paixão dói. E muito. Onde está o

meu mundo? Quero tudo de volta. Quero a felicidade. Lembro de

Schopenhaue

os sábios evitam a dor.

existir. Instauramos socialmente uma busca frenética em torno dessa

felicidade. Esse suposto ponto de repouso contradiz a dialética da

vida, que, por suas contradições inerentes e necessárias, instaura a

dinâmica da própria existência. Nessa medida, existir é estar. Não ser.

Seis séculos antes de Cristo,

constante fluir. Assim, estar não significa a permanência e

consequentemente a morte. Se tudo realmente flui, o estar é tão

somente um dos inúmeros instantes em que nos encontramos. A

condição sine qua non pretendida de uma felicidade permanente não

encontra respaldo, nem realização fora dos muros metafísicos de

alguns pensadores, pois a mera dinâmica do mundo humano por si só

nos coloca em desvantagem ao que pretendemos. O próprio conceito

de eterno não passa de uma grande imaginação, de mera pretensão e

de necessidade humana. Tudo o que se diz ou se pretende eterno não

frequenta a esfera da dialética e muito menos do mundo sensível,

como dizia

decorrer de sua história e permitiu ao ser humano almejar o status de

se comparar com os mitos que ele mesmo criou. Por isso, tudo o que

não é e não pode ser eterno é desqualificado socialmente. Associo a

ausência do outro como à incapacidade do eterno e

r escrevendo que somente os tolos buscam a felicidade:Pois viver é sofrer pelo simples fato de seHeráclito já previa que tudo é umPlatão. O eterno foi uma das invenções humanas no18

conseqüentemente da felicidade. Habito o reino da necessidade.

Almejo o reino da liberdade. Quero e preciso da minha vida de volta.

Sem rusgas e sem traumas. É preciso. Só assim algo pode fazer

sentido nessa existência. Miserável de mim mesmo, alucino cada vez

mais. Todo o amor que sentia não foi suficiente. Tudo o que fiz e me

dediquei foi em vão. O outro, insensível, não percebeu isso. Sinto

pena da minha nudez. O outro sabe tudo – ao menos eu suponho –

sobre meus quereres e pior, sobre minhas mazelas e fraquezas. Não

consigo formular argumento ou mesmo forjar situação capaz de

sensibilizá-lo novamente. Há um estranhamento entre nós. O outro

não fala, não ouve e não escuta. Paródia dos três macaquinhos. Qual

seria a maior solidão que se apodera de um ser humano? A ausência

do outro me sufoca. Mas é a indiferença do outro a fonte do meu

martírio. Não ser notado me faz miserável.

são os outros. Penso que ele acertou pelos seus motivos e eu, pelos

meus. O outro já me esqueceu. Como se eu não tivesse existido um

dia em sua vida e em seu cotidiano. Como um livro lido, fui colocado

num canto escondido da estante. Quero o grito, a loucura, o

desespero, menos esse silêncio taciturno, esse silêncio de morte.

Combatemos no outro a raiva, o ódio e até o sarcasmo, mas nada

podemos fazer contra a indiferença. Tento desesperadamente ser

notado, lembrado. Mas o outro não esboça a menor reação. Apelo.

Talvez se eu contraísse uma doença terminal; ou acontecesse uma

catástrofe mundial irremediável. Quem sabe. Saio em busca do outro.

Como um lobo faminto, persigo seu rastro em todos os cantos. Mas

fico apenas com o aroma de seu perfume que teima em me provocar.

Acho que o nariz tem memória. Mas não é voluntário. Quando quero,

Sartre dizia que o inferno19

ele não se manifesta. Meu nariz me abandonou. Aliás, meu corpo todo

é memória. Ele não me permite esquecer. E eu não esqueço. Num

acesso momentâneo luto contra a memória: junto tudo o que me

lembra o outro e coloco num canto da casa. É como se eu pudesse

colocá-lo num canto perdido de meu pensamento. Pura metáfora.

Nasce o paradoxo. Tenho medo de esquecer o outro quando e se ele

me procurar novamente. Fobia. Também se ele voltar, tudo será

diferente. Ele pagará por tudo. Vingança. A maior delas é que o outro

sinta essa solidão da indiferença. Um dia, mesmo com outra pessoa,

com certeza ele passará por isso. Destino inexorável. Ao sofrer,

lembrará do que me fez passar. Como dizia a letra da música:

vingança

implacável também. Ou penso que sou. Mas a memória não se apaga.

Tudo me lembra o outro e eu amei tudo nele. Lembro a história de um

amigo que namorou certa vez uma menina cujo rosto era cheio de

acne. Quando ela foi embora, ele confessou que amava cada uma

daquelas espinhas. Na época, fiquei chocado. Como seria possível?

Hoje me vejo como meu amigo. Amei cada traço perceptível ou não do

outro. Dane-se a estética do mundo. O outro sempre me foi de uma

beleza incomensurável. Foi a eterna estátua de

como viver sem essa beleza imensa? Tudo me parece extremamente

feio e sem vida. E eu me sinto ainda mais feio e sem vida.

Desencanto. Fico a pensar o que no mundo encantou o outro e o

arrebatou de mim. Talvez um trabalho de

uma imagem, uma palavra ou qualquer outra coisa. Certeza. Um dia

ele verá que foi enganado, iludido. Mito da Caverna. O reino das

sombras se revelará. Ele verá. E tornará a me procurar.

, só vingança aos deuses clamar. E não haverá perdão. SouPigmaleão. E agora,Circe. Foi ele seduzido porAinda que eu20

ande pelo vale das sombras da morte

não faça o que desejo e o de que preciso. É necessário que o outro

não me esqueça. Não posso ser esquecido. Tudo menos o

esquecimento. Mas como fazê-lo lembrar-se? Se ele olha e não me

vê. Sinto-me transparente, invisível. Tudo pode ocorrer a qualquer

momento. O tempo do outro é sagrado. O meu, profano. Portanto,

espero. Um milagre. É só o que pretendo, o que desejo.

essa porta agora/e diga que me adora/você tem meia-hora prá mudar

a minha vida.

que sou igual a todo o mundo? Sou um Florentino Ariza, de

Garcia Marques

sombra imperceptível na vida de Firmina Daza. E como Florentino

quero ser notado. Mas em vão. Uma luz se apagou. Para sempre.

Herdeiro de

meios para me aproximar do outro e quebrar essa sua indiferença.

Uso toda a forma de sedução (que conheço), mas em vão. Há um

descompasso de tempo. Estamos em tempos diferentes, eu e o outro.

Não partilhamos mais o mesmo instante. Ele se foi no espaço como

um astronauta que se soltou da nave. Eu fiquei na nave. Apenas

olhando sem nada para fazer. E o que poderia eu fazer? Apanho

algumas últimas fotos e nos vejo sorrindo. Mas o seu sorriso é a

incógnita de

o significado. Talvez, e o mais provável, rindo de mim. Pura chacota!

Será? No meu delírio sim. O riso da morte. Em muitos mosteiros

medievais, o riso era associado ao demônio, portanto proibido entre os

monges. Acreditavam que Deus e sua missão era assunto sério e

baniram o riso dali. Meu sentimento também é sério. Mas o teu sorriso

. Mas temo. Temor que o outroEntre porA música é a catarse do meu querer. Anonimato. SeráGabriel: 53 anos, 9 meses e 4 dias invisível. Uma pequenaPóros – o deus da cilada e da armadilha – tento todos osMonalisa. Um riso que não sei e não lembro exatamente21

nas fotos me parece falso. Pensando bem, tudo foi falso. Essa tua

indiferença não é de agora. Sempre esteve presente. Você nunca se

importou mesmo comigo. Desde sempre fui somente um segundo ou

terceiro plano na sua vida. Como pude não enxergar isso? Maldita

cegueira! Eu lembro de ficar mendigando seus carinhos e sua

atenção. Como um cão vadio e ordinário seguia seus passos. E me

contentava com as migalhas que você, às vezes, distribuía. Seu

desejo morreu. E matou minha existência. E como um zumbi haitiano

caminho entre os viventes. Mas algo se perdeu para sempre. Culpas.

Elejo os culpados: a falta de tempo, a correria do dia-a dia, as

preocupações demasiadas, o tédio. Mas nada me redime. Isso tudo

nada resolve. Quando desejamos, não há nada que nos impeça. O

que aconteceu é que você deixou de querer. De me querer. Pronto.

Trágica constatação. Bélica e fatal. O outro não me quer mais. Queria

também não querer desejar mais. Mas o desejo parece não querer me

deixar nunca mais.

sinto realmente vivo?

resto era cotidiano. Nada mais importava. Eu sentia a vida pulsar em

mim. E agora, só me resta o duro cotidiano. Arrasto-me pelo caminho.

Fantasmas. Te vejo e não sou visto. Sou possuído por delírios. Um

fogo queima os meus olhos e se recusa a olhar o mundo além.

Miseravelmente só enxergo você.

sua alma. É o que restou. A impossibilidade. Como o final do filme

Nietzsche. Em que momento do meu dia eu meEu sei. Era quando te encontrava. Sempre. ODimmidium est animae. Metade deCasablanca.

apontava para o contrário. Parece não haver final feliz. The End. Acho

que fui enganado. E agora, o que posso fazer? Não sei. A paixão é

uma brincadeira infantil que qualquer dedo adulto pode atrapalhar.

A impossibilidade da permanência quando toda situação22

Deve haver um mecanismo ressuscitador de desejos do outro. Afinal,

o que será que fez com que parasse de me olhar apaixonadamente?

Acordou um belo dia, e simplesmente a paixão se foi? Assim me

parece. Não compreendo essa anulação da transcendência. Um botão

foi acionado e uma história de felicidade desapareceu. A minha

felicidade. Excluído. Acesso negado. O desespero se instala. Não sei

como seguir sozinho. Nada mais parece restar. Sou

capítulo final do livro. Não há o amanhã. De tudo o que se viveu, nada

valeu. O amor não suportou. Minha paixão é como a de Arturo Bandini

em

Nenhum rompimento acontece de sopetão. Todos, absolutamente

todos, são efeitos de um processo e nunca a causa em si. O desfecho

de um enamoramento, portanto, não pode ser entendido pelo

momento do ocorrido, mas por todo desgaste precedente. Algo como

a

detidamente as relações, percebemos que aquilo já havia morrido há

muito. E resta um cheiro de putrefação pelo ar. Cadáveres enrijecidos.

Mas, parecia que ninguém notava. Muito menos o que queria ali

permanecer. Isso porque aceitar não é fácil. Parece que preferimos

velar eternamente o morto.

consigo o germe da própria destruição.

morrer. Trata-se de condição sine qua non da natureza. O ciclo

necessário para sua própria renovação. Mesmo em contexto diverso,

podemos nos apropriar momentaneamente desse pensamento para

nos ajudar a entender as rupturas do amor. Sempre aquele que fica,

isto é, o rejeitado, é aquele que num dado momento – mais cedo ou

mais tarde – procurará essa renovação. Um corte de cabelo,

Werther noPergunte ao Pó de Jonh Fante. Amo o inusitado, o imponderável.crônica de uma morte anunciada. O fato é que quando olhamos maisHegel dizia que tudo que nasce trazAssim, tudo que nasce merece23

emagrecer, freqüentar academia, fazer um curso entre outras

atividades passa a ser o pressuposto de uma mudança radical. Nada

que faça lembrar o outro. Se ele não gostava de tal coisa é tal coisa

que farei. Trata-se de uma vingança velada. Tanto tempo ou não –

não importa – em que me dediquei e não fui reconhecido. Agora é

diferente – penso eu. Farei o que gosto e pronto. Trata-se de um

último movimento de sobrevida. Mas não é fácil. O costume, o hábito

criam certo imobilismo e algumas vezes é com enorme esforço que

consigo. Mas em algumas delas não consigo. Como somos seres da

permanência, não sei lidar com seu oposto. E fico o tempo todo

encaminhando-me ao encontro do outro. Pois só ele sabe – e eu

acredito piamente nisso – me fazer feliz. Inicio comparações: algumas

pessoas até se aproximam em alguns detalhes, em alguns gestos, em

alguns pensamentos, mas é só. E não o suficiente para uma

substituição. Parece um Karma. Não há transcendência suficiente para

que eu me apaixone novamente. Não agora. Ainda vejo os demais

com um olhar racional demais. Dois pesos e duas medidas. Qualquer

coisa me irrita e me faz descontinuar qualquer pretensa relação. Não

me dou uma chance. Nem para os outros. Estou fechado. Sou um

estóico que acredita que tudo tem o mesmo peso e a mesma medida.

No fundo – e acredito nisso – todos são iguais. Recolho-me à minha

toca como um animal ferido. Nenhum apelo – exceto aquele que

espero – me obrigará a sair de mim mesmo. E a ferida dói muito e

parece nunca mais cicatrizar. Vejo-me como um guerreiro que lutou

sua última batalha. Espero o golpe final da morte para sossegar meu

espírito. Não consigo mais continuar. O outro se me assemelha como

um irmão xipófago e sem ele algo se perdeu para sempre. E como

24

Dante

minha

os trilhos do metrô, dançaria tango no teto…

em meu cérebro dia e noite. Nada seria impossível. Sou um 007

apaixonado. No livro

único exército invencível seria aquele formado por amantes. Óbvio. O

amado nada deixaria acontecer a seu amante. E é como me sinto.

Tenho forças para enfrentar tudo. Menos esse abandono em que me

encontro. Se ao menos o outro me acenasse com a mínima

possibilidade? E fico o tempo todo buscando sinais, signos dessa

volta: um telefonema, um e-mail, um olhar…qualquer coisa e, ao

mesmo tempo, todas elas parecem ser sinais de volta. E por alguns

instantes, me embriago de felicidade para posteriormente cair em total

prostração. Doente. É assim que me sinto. Essa tua ausência não será

jamais preenchida. A sacralização do outro. Ergo um altar e cumpro

severamente comigo mesmo os rituais de adoração. E enquanto

ritualizo, não esqueço. Pois ritualizar é manter vivo aquilo em que

acredito. Não ritualizar é profanar. E é dessacralizar o outro. Sair do

reino sagrado é macular toda a relação. Não posso e não o farei. O

outro me parece um demiurgo. Ele na verdade é o grande semideus. E

sempre o foi. Eu é que fui e sou demasiado humano.

Demasiado Humano

homem é uma corda atada entre o homem e o além-do-homem.

maldita capacidade metafísica de idealizar coisas e pessoas. Queria

apenas a inteligência concreta dos animais: algo que se esgote em si

mesmo, que não vá além do vivido, não transcenda e nem crie

representações. Nada mais. Lágrimas afloram pela incapacidade disso

e se o outro assim quisesse desceria ao inferno para salvarBeatriz. Nenhum esforço seria demais. Por você, eu lamberiaEssa música reverberaO Banquete, de Platão, surge a idéia de que oHumano,. Sou assombrado pelo fantasma de Nietzsche : oEssa25

e, portanto, de esquecer. Pois esquecer é superar e superar é criar.

Quero recriar o cotidiano. Resgatar uma certa inocência e uma certa

ingenuidade perdidas nessa trajetória. Ressuscita-me. Mas

parece muito distante. Quero viver novamente as origens dessa

relação. Apelo mítico. O eterno ritual da origem – onde nada existia e

passou a existir – lembrança que não se apaga. A primeira vez. E

sempre parecia a primeira vez. A cada encontro assomava-se um “frio”

na barriga, o batimento cardíaco acelerado, um “nó” na garganta.

Sintomas próprios da paixão. O enamorado não consegue disfarçar.

Fica escancarado no outro o que ele sente. E ficamos expostos e

vulneráveis. Somos presas fáceis.

propulsora da vida, isto é, aquilo que nos faz sairmos de nós mesmos

e irmos ao encontro do outro. Esse trajeto torna-se, às vezes,

perigoso, pois ficamos expostos. A relação afetiva com o outro implica

conhecermos nossos limites, nossos acertos e erros. É o que nos

garante o equilíbrio-emocional.

identidade apontou que “

me nega”.

outro no mundo jamais poderia chegar, a saber, quem sou ou mesmo

o que sou. A diferença do outro me faz saber exatamente o que sou.

Essa oposição, que se denomina dialética, garante o movimento do

conhecimento de si e do outro.Uma relação apaixonada nunca é

instável. Isso porque a paixão não ocorre com a mesma intensidade

entre os pares. Sempre um está mais apaixonado que o outro. E como

se trata também de uma relação de poder, aquele que está menos

apaixonado vai comandar essa relação. Trata-se de guerra e não de

paz. Nosso imaginário nos remete sempre ao cenário de repouso

Lázaro meEros é denominado a forçaHegel, quando teceu o princípio daeu só sei quem sou, porque tenho o outro queOu seja, a negação do outro é a minha afirmação. Sem o26

absoluto, negando as contradições inerentes do ser. No campo

afetivo-emocional, então, nos parece ser mais profícuo nesse

postulado. Os contos de fadas habitam nosso imaginário mais

profundamente do que possamos admitir. O outro – príncipe ou

princesa – virá com certeza para nos redimir da solidão, e mais ainda,

para preencher totalmente esse vazio existencial. Quando acredito

que o encontrei, o transformo rapidamente nessa imagem – do

absoluto – e projeto nele meus anseios e desejos. Eu me desnudo.

Quero e preciso desesperadamente ser arrebatado desse lugar

comum em que me encontro. Assim, não me basta e não é suficiente

apenas o encontro com o outro. Não desejo apenas a troca. Quero a

salvação para todo o sempre. Quero a eternidade num instante. E isso

acaba por gerar uma angústia, ao perceber que esse outro ou não

pretende, ou não pode saciar por completo esse meu querer. E o

inferno se instala. Eu falo e o outro não escuta. Eu mostro e o outro

não enxerga. Miséria. Como pode ele não perceber esse propósito?

Será que não sabe das minhas carências – que são muitas -? Por que

não quer desempenhar o papel que lhe cabe? O que falta? Então

começo a me sentir mal-amado. Se ele me ama como afirma,

evidentemente não me ama como preciso. E se assim é, então não

me ama. Cada um de nós constrói representações de como amar e

ser amado. Ficamos cegos quando o outro não retribui da maneira que

necessitamos. Logo, não me ama. Então passo a tentar entender, nas

entrelinhas do outro, o que ele pretende. E muitas dessas leituras são

deturpadas pela emoção que as envolve. O outro sempre me parece

distante. Afirmo “se

Paranóia. Fico pensando qual o meu lugar em sua vida. E deduzo que

ele quisesse mesmo”, “se me amasse realmente”.27

ocupo apenas e tão somente um réles lugar atrás de muitas outras

coisas. A vida do outro não gira exclusivamente em torno da minha.

Ele parece nunca fazer o que preciso no momento que preciso. Não

me abraça quando imploro esse abraço com um olhar de cão

abandonado. Não me procura nas minhas enormes carências e nunca

parece dizer nada sobre seus sentimentos, que avento serem

diferentes dos meus. O outro me é enigmático. Nunca sei o que

pensar e o que fazer. Fico pensando então porque está ele na minha

vida. Pois me parece não fazer a mínima diferença para ele. É quase

mesmo uma indiferença. O que pretende ele?. E enlouqueço. As

amarras me parecem tão frágeis que a qualquer momento se

romperão. Tento fortalecê-las com jogos de sedução. Mas não me

sinto um sedutor irresistível como

mas não consigo. Meu olhar nunca é aquele “fatal”, meus gestos

carecem de elegância e minha linguagem nunca é poética. A arte da

sedução não faz parte integrante da minha vida. E nada parece

sensibilizar o outro. Queria ser

transformá-lo naquilo que preciso. Mas não o sou. Na verdade me

sinto um nada e ninguém. O que posso fazer se me parece que as

coisas mais triviais do cotidiano o encantam mais que a minha

companhia?

Amor assim não deve existir. Penso nas cartas de

D. Juan. Busco aprender a sê-lo,Circe por alguns instantes. EShakespeare, algumas vezes, me parece um impostor.Abelardo e Heloísae estremeço. O que seria viver intensamente um grande amor? A

insustentável leveza do ser. Estou pesado e pesaroso.

grande amor

apenas escreveu e cantou o que pretendia? Procuro um repouso e

não o encontro. Estou longe disso. Sou

Para viver um…oh! Vinícius. Será que você conseguiu isso? OuWerther em seus últimos28

instantes de vida. Desespero. Olho para a barata como

Clarice em APaixão Segundo GH

personagem kafkaniano em

em algo que nunca pensei existir. Um outro de mim me invadiu. E não

há leveza nem beleza nisso. Tento não pensar, mas me é impossível.

Como a gripe não esperada, essa saudade chega e ocupa todo o

tempo e todo o espaço em minha vida. O ciclo parece nunca mais

acabar.

navegar…

senão esperar. Como uma carpideira, esperar a próxima morte. Talvez

a minha. Se eu morresse talvez fizesse ressurgir o amor que o outro

deixou de sentir. Minha ausência seria para sempre e dolorosa. O vejo

arrependido e chorando sobre meu caixão impossibilitado – como

fiquei e estou – de fazer qualquer outra coisa. Impotência. A visão de

minha morte me acompanha o tempo todo. Fissura. O outro veria

então o que perdeu. E mais que isso, amarguraria para sempre essa

perda até os últimos instantes de sua vida. Desejo tanto isso, que

tenho medo do que possa acontecer. Mas, ao menos, eu o faria sofrer

um pouco de toda angústia por que estou passando. Veria então como

é difícil e asfixiante não ser notado. Parecer invisível para o outro é

uma experiência cruel. Colocar a melhor roupa, o melhor perfume e

esperar que o outro apareça e note toda a minha boniteza. Isso dia

após dia, noite após noite. Mas ele nunca chega. Então vou a lugares

possíveis para encontrá-lo. E se acaso o encontro, ele não nota

absolutamente nada. Nem o cabelo, nem a roupa, nem o perfume,

nem minhas mãos trêmulas, nem a ansiedade estampada em meus

olhos. Ele não me vê. Apenas enxerga o que quer. E não me quer

. Não me distingo de mais nada. Sou oMetamorfose. Estou me transformandoSaudades de uns olhos cor de mar, que saíram aAh! Cecília Meirelles. Parece não haver nada mais a fazer29

mais. Sou apenas o passado imperfeito remoto e esquecido. Não

represento mais nada. O outro olha para frente, para o futuro e eu

busco o passado e respiro o presente. Será que esqueceu tudo

mesmo? Será que não se lembra de mais nada? É possível deletar as

coisas e o tempo? E lembrar é realmente sentir? Como não consigo

fazer isso? Invejo a decisão do outro. Só eu fiquei com as memórias

de um passado recente. Impossível olhar as coisas do mundo sem

lembrar ao menos de um detalhe dessa relação. Aliás, parece que

tudo me remete a isso. Lembro de Pascal: Tudo já foi dito pela boca

da história. Estamos sós no universo. Deus nos abandonou. Como os

daimon socráticos, ouço vozes que não me deixam esquecer. Como

uma espécie de teletransporte o outro reagrupa os átomos e sua visão

explode na minha frente. Do nada me deparo com o teu saudoso

rosto. Só que teu sorriso é de puro escárnio. Riso de vencedor. Um

gosto amargo de fel infecta minha saliva. Se eu pudesse faria você

recobrar a sanidade. Pois acredito que você, por alguma razão, a

perdeu em algum momento. É esse momento que persigo

incessantemente.

o tempo e a eternidade.

mudar tudo. É como me vejo. Nessa transição entre a possibilidade e

a impossibilidade. O outro tornou-se um sonho distante, mas ainda

perseguido. O que fui e o que sou confundem-se com o que restou.

Sou apenas um sobrevivente. Mas o que restou corrói minhas

entranhas. Sinto-me como

águia sagrada. Nada posso contra essa força incomensurável. Apenas

suportar. Quixotescamente falo com os moinhos de meus sonhos.

Tento espantar esses demônios que insistem em aparecer. O seu

Átimo. Palavra grega que designa o encontro entreKairós e Cronos. Um instante. Que podePrometeu ao ter o fígado dilacerado pela30

“não-querer-me-mais” ocasionou um infinito desejo que não consigo

sublimar. Pior que se sentir um ninguém é a sensação de ser nada.

Porque o ninguém é somente a inversão do alguém, portanto,

puramente humano. Mas sentir-se nada é mais angustiante. A

nadificação do ser, propagava

comparável à qualquer coisa existente e não necessariamente a um

humano. É isso. Desumanizado, ou reificado é como me sinto e me

vejo. Olho o espelho. Não sou bonito nem feio. Maldição. Sou uma

pessoa comum demais. Nem

ser como milhões de outros no mundo. A arte da sedução passa pela

beleza estética. O espelho me revela o que não quero ver. Sou

somente mais um anônimo perdido nesse mundo. E no alto dessa

solidão de pessoa comum, sei que não terei como fazer você voltar. E

um abalo sísmico faz meu corpo tremer e minha visão embaçar. O fato

é que a paixão nunca ou quase nunca condiz com meu querer. Talvez

o problema esteja na formulação do conceito. Está ela muito além do

que podemos e fazemos. Um padrão imposto socialmente:

é…”

queira, sim, mas não da maneira como quero e acima de tudo, de

como preciso. Então, o seu querer não me diz respeito. É o mesmo

que não me quisesse. E aí eu sofro. Mas não me entrego. Quero por

que quero que seja do meu jeito. Porque acho que é o jeito certo.

Maldita certeza cartesiana. Caio em profunda depressão. O universo

parece conspirar contra meu desejo. E você é só ausência. Não está

onde quero, nunca chega quando preciso. Uma carência aflora e me

corrói. Mas como o herói grego, desafio o destino. E uma odisséia se

instala no meu viver. A saga emerge colossal. É preciso que eu te

Sartre. Ser um nada pode serApolo e nem Quasímodo. Apenas um“apaixonarseE eu nunca sou. Nunca fui. E jamais serei. Talvez o outro me31

mate. Anunciar a morte da paixão já pressupõe uma certa

racionalidade. Uma supremacia de

nietzscheana. Mas me parece inexorável nesse momento. Heráclito

anunciava que a paz só advém da guerra. Agora entendo isso. Negar

você é como negar-me. Serei um predador da paixão. Mato pela vida.

E você desgraçadamente tem de morrer. Desconstruir essa imagem

que eu mesmo criei. Destruir o Totem de maneira devastadora. Não

terei e não darei tréguas. Uma luz se apagou. Mas as trevas sempre

trouxeram consigo a possibilidade da luz. Não se trata de escolha; é o

inevitável. Mato a possibilidade. É preciso me despir desses rituais

que me lembram você. Deixe que os mortos enterrem os

mortos…Triste verdade. Não olhar para trás.

Psiqué sobre Eros. NegaçãoEurídice e a mulher deLot

de resistir. Não posso te ver com o mesmo olhar. Encerrar as

celebrações e deixar instalar-se um luto. Vai ser difícil sem você.

Plotino dizia que o amor é desejo inesgotável. E quem pode combater

o desejo? Seria o mesmo que combater uma nuvem, um poema, um

sonho. E alguém porventura ganhou essa batalha? Mas não posso

desistir. Disso depende minha própria sobrevivência, pois como dizia

. O castigo necessário. E mesmo que a tentação seja enorme, tereiSêneca

spatium non uita tempus est, ou seja, pequena é a parte da vida que

vivemos. Pois todo restante não é vida, mas tempo.

em você e você era a vida. Para os gregos clássicos,

desejo do ser ausente. E esse tempo todo eu me ausentei de mim.

Uma condição necessária para tentar sobreviver. E essa sobrevida é o

que me restou.

a fim de ficar bonito para ir ao encontro. Devo parecer com quem amo.

: Exigua pars est uitae Qua uivimos. Cetrum quidem omneE a vida estavapothos era oSócrates no livro O Banquete disse: então me enfeitei32

E eu desejei você para além das minhas possibilidades humanas,

quase como um ritual mítico. Mas o teu olhar se perdeu em algo, em

algum momento. E a morte se fez presente em mim. A ausência é a

figura da privação. E sem o teu olhar, as coisas perderam o foco. A

morte é o luto daquilo que percebemos. E quando você deixou de me

perceber, uma voz do silêncio se impôs. E todos os meus gritos não

foram ouvidos e um tempo sombrio emergiu e me abraçou. E todas as

tentativas de resgatar novamente teu olhar soçobraram num imenso

vazio. Restaram apenas os cenários em ruínas e um desejo de

paraíso que jamais irá se concretizar. E como nunca encontramos um

herói que não tivesse falado antes de morrer, uma voz que sai da

minha boca, mas que não é minha, sussurra,

…vai vida minha

vai se embora

vai que o teu destino está chamando,

vai, parte com a supremacia da aurora

esqueça nossos males desenganos…

33

Um piscar de olhos do destino

Há uma espécie de recusa

nos olhos que não

revelam

facilmente seus segredos.

Sentados

em seus monótonos

mundinhos e

confortáveis no seu sofrimento.

O medo que aflora

é o de falhar,

quando não se é sabido

que a coragem

está em tentar,

pois o tempo prá ser feliz

é curto.

Como um pássaro de asa partida,

rasteja pela terra

esquecido do frescor

da copa das árvores.

Mas a lembrança também

não apazigua a sua situação,

porque não há

um eterno-retorno.

Na ampulheta

escoam os sonhos

preteridos e mesmo

pretendidos

de um passado

que tornou-se gasto

por todas as coisas

que não foram ditas.

E a repetição

dos gestos

afigura-se

como uma pretensa realidade

e sepulta

a magnitude de sentimentos

que calados

revelam

a indignidade

da ausência.

34

Parte II

Razões da não permanência

Ou

O Beijo que não foi meu

35

Um dia quando você

Não reconhecer mais

Meu antigo olhar,

Apenas lembre-se do brilho

Que deles emergiam

Quando te buscava

Em cada canto, em cada pedaço

Dessa terra que pisaste.

Um dia quando meu olhar

For apenas um esquecimento

Na sua memória

Deixe que o luar prateie

Teu rosto

E que essa luz

Num lampejo esporádico

Te faça sentir

Uma calma monástica

Quase imperceptível.

Um dia

Quando meu olhar

For apenas

Um desejo antigo,

Deite sua cabeça nas folhas amareladas

Pelo tempo

E permita que o vento

Brinque de esconder nos seus cabelos

E que num breve instante

Mesmo que de soslaio

Possa olhar o azul do céu.

Foi um alívio. Já não agüentava mais essa situação. Quem nunca

pensou na morte oportuna de um enamorado? Quem nunca pensou

num acidente do outro que pudesse solucionar de vez as coisas? Não

carregarei essa culpa ocidental comigo. Foi feito, o que tinha de ser

feito. Não sou e nem serei o protagonista dessa história. Todos os dias

morrem pessoas no mundo todo. A morte é algo presente em todos

nós. As razões por viver variam e cada um é partido, eu responsável

36

por si mesmo. Eu me enlutei também. Embora eu tenha abandonado,

eu tenha deixado para lá, eu me enlutei também. Não foi suficiente? O

que mais eu poderia ter feito? Quando você olha o outro e nada vê

além de si mesmo? Desvelado e revelado, o outro perdeu o

encantamento. E nem sei se houve mesmo um dia algum tipo de

encantamento. Tudo pode não ter passado de um engano. Algumas

coisas na nossa vida acontecem… é como um rio caudaloso que não

conseguimos conter. Os fatos sucedem fatos e uma trama é tecida e

aí chegamos no que chegamos. Mas viver é isso. Ninguém,

absolutamente ninguém, é capaz de prever nada. A

não pode ser dita. E aí os fatos muitas vezes, nos surpreendem….Já

não suportava mais aquilo. Era uma tortura ter de dividir coisas, das

mais simples às mais complexas. O outro já não me representava

mais nada. Era como se ele ali não estivesse. Mas estava e me

incomodava. E eu fazia qualquer coisa para não ficar ali. Estava

sempre com alguma coisa pra fazer. E se não tinha, inventava. Não

era possível mais passar horas ao seu lado.No início ainda me

emocionava um pouco. Parecia olhar para o cordeiro que ia para o

abate. Ele se perdia nas coisas cotidianas e eu observava o final de

tudo. Programar coisas juntos era uma verdadeira tortura. E eu

ensaiava o final. Analiticamente pensava na melhor maneira de fazêlo.

Mas percebi que não havia melhor maneira. Aliás, não há maneira.

Não suportava mais essa mendicância do outro. Como o cinema

nacional, era sempre o mesmo enredo, sempre o mesmo final. Eu me

tornei meu próprio

incompatíveis e antagônicos. Isso serve para o conforto de ser, mas

não se pode efetiva-lo no cotidiano. Infelizmente. O amor é também

mântica gregaÁtila, o flagelo de Deus. Piedade e amor são37

destruição. Ou melhor, o fim do amor é altamente bélico. E uma das

duas partes será mais atingida. Não existe final feliz nisso. Ao menos

inicialmente. O final de uma relação é algo extremamente rancorosa

para os dois. Tudo aquilo que foi sufocado, escondido, camuflado

emerge como um

faz-de-conta. Um erro e um engano. É assim que nos sentimos. Tanto

para quem vai quanto para quem fica. E muitas vezes, teimamos em

ficar porque não queremos vivenciar o fim das projeções que nós

mesmos criamos. Somos covardes também nesses momentos. Mas

se desejamos ir e vamos, o mundo cai literalmente sobre nós. É uma

troca de referências cotidiana assombrosa e gigantesca.

Bem e mal circundam nosso imaginário desde quando deixamos de

ser arborícolas. Geralmente quem parte é visto e tido como o mal

encarnado. Todos, ou quase todos, se apiedam de quem fica. Porque

se entende que ficar é continuar amando. Para aquele que fica, há

uma tolerância maior por parte de todos. Ele pode falar mal, xingar,

pois, há uma comiseração social que o suporta. Para quem vai, só

resta o ônus de ter deixado a pessoa entre a vida e a morte. Não há

perdão nem piedade. No entanto, encontros e desencontros

continuam a existir. Vinícius com seu

ficou nas prateleiras das livrarias ou na melodia para a maioria das

pessoas. Isso não foi aplicado na vida e no dia-a-dia. O eterno ainda

tem uma força intangível em nossas vidas. Quem fica, chora a perda

dessa eternidade, construída historicamente pela moral e religião. Mas

a vida, nem sempre quer obedecer a códigos criados e impostos ao

longo da história. A vida se rebela também em não se curvar perante o

“natural”. E quando isso acontecesse, rompemos. Há uma resistência

Leviatã e destrói tudo. O fim dos sonhos. O final do“infinito enquanto dure” 38

em cada um de nós. E algumas vezes, ficamos ausentes pelo resto da

vida, sem o outro saber. E podemos fazê-lo e na maioria dos casos é

assim que se efetiva. Rompemos sem ter que partir. Na verdade é

uma partida velada, discreta e muitas vezes irreconhecível pelo outro.

Estamos não estando. Ser e Não-Ser. Por isso, às vezes, desejamos a

morte do outro. Que pode nem ser física. Mas ansiamos um momento

ou uma situação em que o outro simplesmente desapareça para que

livre, eu possa seguir em frente. Sei que parece desumano, mas na

verdade é extremamente humano. Nossa vontade de bem-estar grita

alto e aí atropelamos tudo. O dinamismo da vida e seus desejos se

instalam e tudo o mais se torna insuportável mesmo. Porque o futuro

nos encanta e o que queremos e desejamos com todas nossas forças.

Mas que futuro pretendo eu? Olhava e me via ali, parado e

envelhecendo de uma maneira que não queria. O outro não era a

pessoa desejada para isso. O outro me era algo sufocante, o

impedimento da vida plena. E a maior crueldade é impedirmos a vida

de se fazer, de se realizar. Nosso controle sobre as coisas é pífio

mesmo. Achamos que temos, mas na realidade a maioria das coisas

foge ao nosso controle. E nossa pretensão maior é querer controlar a

afetividade. Enquanto não compreendermos que isso é incontrolável

mesmo, não conseguiremos chegar próximo do que somos.

Continuaremos vivendo o simulacro de nós mesmos, isto é, uma

imagem criada e aceita socialmente. Só isso.Falta. É lógico que sinto

falta. Alterar cotidiano e suas referências são sempre um processo

conturbado. Mas é falta e ao mesmo tempo alívio. Acostumar-se é

uma tendência muito humana. Por isso, muitas vezes, confundimos

sentimentos com costume. Então somos tolos? Podemos dizer que na

39

maioria das vezes sim. Mas essa nossa tolice pauta-se nessa

construção conceitual histórica em que estamos inseridos.

Aprendemos assim, e assim permanecerá. A negação dessa dinâmica

da vida nos condena a acreditarmos que as teorias criadas estão

sempre certas e mesmo verdadeiras.Isso nos faz permanecer,

impossibilitando o novo, o diferente. Esse suposto ponto de repouso

contradiz a dialética da vida que pelas suas contradições necessárias,

instaura a dinâmica da própria existência. É o enquadramento da vida

e sua garantia de dominação. Será que a vida se enganou? E eu

carrego meu engano. Como Atlas, estou fadado ao peso do mundo,

preso numa espécie de tragédia grega. A nebulosa de

muito distante daqui. Mas dei o passo. E agora sigo meu próprio

caminho. E não quero rever nenhum outro final.

somente cinema. O final nunca é o fim. Fim é somente a morte e nisso

ela é insuperável. Mas me convençam a crer que é possível viver com

alguém sem ter desejo. Claro que muitos, por um monte de razões o

fazem, mas para alguns, isso se torna mesmo insuportável. Corpo,

mente e alma dizem-nos o que querem e conseqüentemente o que

queremos. E não se trata de escolhas. Podemos negá-los, mas

sabemos que o engano é nosso. Nietzsche condenou o

aprisionamento dos instintos vitais pela razão. Não por acaso.

Nietzsche sabia que fazia um manifesto à vida e desdenhava da

morte. Aprendemos pela experiência quase todas as atividades da

vida. Mas não se ensina a amar ninguém. Não há escola para isso.

Podemos até amar de uma forma cultural, mas é o desejo de cada um,

e isso é exclusivo e intransferível, que nos faz, num primeiro momento,

querer alguém. E não querer também. E se isso é um enigma, que

Órion estáCorra, Lola corra é40

nem

enigma maior ainda. Não necessariamente essa vida enquadrada na

medida social, mas a vida oriunda dos desejos. Essa é perigosa

porque quebra padrões e impõe novos quereres. E é essa luta entre

querer e não querer que nos move. Em qualquer das situações,

haverá implicações. Não há como escapar disso. Às vezes penso que

seria melhor ter deixado as coisas como estavam. Abandonaria o olho

do furacão. Mas aquela pseudo-calmaria estava me matando. Estava

me sentido sepultado, sem luz ou brilho para nada. Voltar e encontralo

era uma tortura. Chega um momento, que qualquer coisa, mas

qualquer coisa mesmo era melhor que vê-lo. E uma ansiedade crescia

em mim de forma desesperadora. Disfarçar me era quase impossível.

Todo aquele cotidiano me sufocava, não pelas coisas mas pela

companhia. Não o culpo. A questão não era o enamorado. Aquilo era

comigo somente. Meu olhar havia quebrado a imagem. E eu sabia ser

impossível consertá-la. Era como uma crônica da morte anunciada.

Necessária e inevitável. Mesmo assim, eu esperava por um milagre.

Ficava pensando que podia não ser aquilo e quem sabe os céus me

mostraria a verdade. Verdade. Queria mesmo naquele momento sabêla

profundamente. Mas eu não tinha certeza alguma. O que eu sabia

era que o outro não me dizia mais nada. Essa era a certeza que eu

tinha. Uma maldita certeza que me corroia. Mesmo assim, tentei por

várias vezes, ficar. Mas em todas elas eu me sentia violentado. E

também achava que sem minha presença o outro pereceria. Ele não

sobreviveria sem mim. Pretensão, claro. Mas nesses momentos

pensamos as coisas mais absurdas. A cena final de

atormentava. Não queria que o outro sofresse. Mas como podia eu

Hermes ao distribuir os sonhos foi capaz de dizê-lo, a vida é umCasablanca me41

evitar esse sofrimento? Eu não estava preso por minha vontade.

Estava preso para não fazer o outro infeliz. Mas e eu? Criei para mim

uma espécie de

demônios cresciam na medida em que o tempo passava. E me

atormentavam cada vez mais. Tinha a impressão de ter o poder de

vida e de morte sobre o outro. E acho que tive mesmo. Escolhas.

Escolher foi e é sempre a grande sina humana. A história é feita de

escolhas. Nossas ou de outras pessoas. Em ambos os casos,

algumas escolhas direcionam para sempre nossas vidas. E as

rupturas são sempre as mais torturantes. Parece sempre que fomos

feitos para permanecer. Mesmo que as situações nos sejam de morte.

Romper parece não fazer parte de nossa condição. Queremos nos

instalar o mais confortavelmente possível e ali permanecer até

morrermos. É assim que pensamos. É assim que agimos. E essa

nossa ação é somente, em muitos casos, para apaziguar as coisas.

Não queremos conflitos. E dessa forma, permanecemos. Sem a vida

que gostaríamos, sem fazer o que pretendemos e pior, sem nos

permitirmos para as coisas diferentes. Tudo parece ser uma ameaça.

E tudo é uma ameaça mesmo. Tenho medo, nesses momentos, de ter

sensações novas e desejadas. E aí tento bloquear-me, num

desesperado instante de me ausentar disso. Mas a vida grita alto. E

passo a viver novamente a sina do conflito. A

dos dois caminhos são inevitáveis. Não se pode querer tudo. Mas eu

queria. E por isso permaneci. Estático e impassível durante muito

tempo. Afinal, queria ganhar sem perder…é o que sempre queremos.

Mas a vida e suas coisas não podem ser tratadas e resolvidas pela

contabilidade matemática. O sonho de

Sing Sing do qual era impossível escapar. MeusEscolha de Sofia. UmDescartes foi apenas um42

sonho. Impossível mensurar sentimentos e enquadrá-los numa

equação. Causa e efeito também não.

Skinner bem que tentou ePavlov

confirmar que estamos, além disso. Para nossa tragédia. Seria mais

fácil de outra maneira. Mas desejamos coisas e esse desejo é o

freudiano

nos tornamos algo que acreditamos ser. E eu definia minha escolha. E

já antevia a catástrofe que isso geraria. Tinha de dizer adeus. E

nenhuma partida é agradável. Mas era necessário. E fui embora. Não

como

não voltei. E me acusam de insensibilidade. Mas creio que fui bem

sensível para com a situação. Eu estava me matando e matando o

outro também. E que direito tinha eu de tornar a vida do outro um

grande inferno? E o outro sabia. Essas coisas nós sabemos. O que

acontece, muitas vezes, é que não querermos ver. E não vemos

mesmo. Depois é que juntando as coisas todas, percebemos. Mas

isso demanda um certo tempo. E não queremos ver porque não

aceitamos um possível fracasso, uma derrota em nossos sonhos. O

fim da utopia. Eis a questão. O que não percebemos e não intuímos é

que outras utopias virão, novos sonhos serão sonhados. É a dialética

aclamada por

futuro, do amanhã. E matamos a vida. Porque não aceitamos seu

querer que colide com nossa razão, nossa consciência, nosso

pragmatismo mesmo. Quem essa vida pensa que é para despertar em

mim o que está adormecido pelas minhas verdades? Ela merece ser

extirpada como uma doença maligna que apenas tem o propósito de

desequilibrar a paz reinante. Aprendemos ideologicamente que cada

também. Mas isso ficou restrito ao laboratório e nos ajudou aEros. É por meio dessa pulsão que escolhemos e pelas escolhasUlisses fez com a Penélope, fui sem a esperança de voltar. EHegel. E que infelizmente petrificamos em nome do43

coisa tem o seu lugar. E a vida parece querer implantar a desordem

mesmo. Parece-me ser um vândalo que só pretende disseminar

intempestivamente o conflito. Matem a vida onde quer que ela nasça!

É preciso para garantir a segurança de todos. É assim que fomos

educados. É assim que agimos. E a vida me levou. Como um

vendaval num dia de calmaria, ela me arrancou de mim. E não tive

como não fazê-lo. Foi me impossível lutar mais tempo contra mim

mesmo. Ninguém consegue isso para sempre. E implodimos,

literalmente.

deve fazer o mal de uma única vez e o bem aos poucos. A tragédia,

por pior que seja, tem que ser uma ação única. É a maneira de

sobrevivência do governante. Pequenas doses trágicas geram mais

sofrimento e mais ansiedade de quem as recebe. E aí reside o perigo.

Não por acaso podemos pensar na estratégia nazista: a tragédia era

tão grandiosa, que milhares morreram sem acreditar que aquilo era

verdade. Pode parecer uma analogia um tanto deslocada do contexto,

mas algumas vezes, afetivamente isso se torna necessário. Afinal,

travamos batalhas diárias com e pelos nossos desejos. São lutas pela

sobrevivência psíquica, que nos faz mergulhar profundamente em nós

mesmos, no anseio de sanar momentaneamente um grande

incômodo. Nem sempre conseguimos, mas não nos resta outra

alternativa. O horror de estragar é maior que o medo de perder. É

assim que me senti. Tinha um medo enorme de estragar, muito maior

que o medo de perder. Estragar me parece pior. Estragar um cenário

pensado e montado ainda me parece uma profanação. Mas não havia

outra maneira de ser e de se fazer. Não há outros caminhos, não há

outras soluções. Eu bem que tentei. Tentei acreditar em tudo que me

Maquiavel estava certo quando disse que um governante44

diziam, durante um bom tempo me iludi de que daria para continuar,

que era uma fase, que as coisas são mesmo assim e que tudo iria

passar e ficar bem. Mas isso não aconteceu. Crescia algo em mim que

me sufocava. Como um vulcão adormecido há muito e que num

repente, acorda e solta fumaça na montanha. E assim aconteceu.

Mesmo com medo, eu parti. E o ódio do outro me acompanhou. Um

ódio que seria capaz de me matar se fosse possível. Sempre achei

que

estaremos bem com alguém, se quisermos. Parece óbvio dizer isso

hoje em dia. Mas o fato é que isso fica só na linguagem. Nos

aprisionamos ao outro, muitas vezes, não pelo desejo de um querer

nosso, mas sim por outras coisas e questões. Quando o desejo se

ausenta, forçamos muitas situações na esperança de que

conseguiremos dar a volta e retornar ao ponto inicial. Ledo engano.

Nosso imaginário tenta forjar momentos e cenários. Mas como

convencer a

O desejo abre outras janelas e mesmo tentando muito, raramente

conseguimos ludibriá-lo. Tentamos desesperadamente juntar pedaços

de coisas e imagens e montar uma fortaleza que nos protegeria.

Fazemos terapia, freqüentamos religiões, ouvimos fofocas, vamos a

cartomantes…e nada parece funcionar. Chego a acreditar que existe

algo de muito errado em mim. Afinal, como foi possível querer e nãoquerer

mais? Devo estar possuído por algo muito ruim. Entro num

processo desgastante. Continuo assim e anulo meus desejos e

conseqüentemente me anulo como pessoa, ou tento romper com esse

ciclo de morte. E essa dubiedade me consome. Quero

medo me paralisa. Faço um discurso próprio de convencimento: em

pertencer ao outro é um gesto voluntário. Só ficamos bem elibido que as coisas são assim por serem assim mesmo?Ser, mas o45

nome da Família, da Pátria, da Tradição, da Religião e de tantas

outras coisas, farei o sacrifício de permanência. Porque no fundo isso

um dia servirá de moeda-de-troca:

Olha o sacrifício que fiz por você.Minha covardia pode render dividendos futuros. E essa situação é

mais comum do que imaginamos. Muitos casais permanecem nesse

limbo a vida toda, só esperando a oportunidade de aflorar o inferno.

Sabendo disso, não fiquei. Superei meu medo e parti. Não quis

esperar mais para que um dia eu simplesmente olhasse a situação e

me arrependesse de não ter feito. Quis evitar a sonora pergunta:

que fiz da minha vida?

nada. Fiz o que tinha de fazer para sobreviver da melhor maneira

possível. Parece que fui tomado por uma

lugar comum e me empurrou fora desse aprisionamento. Os

OEntão fui fazer a vida. E não me condeno porarétè grega que me tirou doanarquistas

fecundação.

sempre me foi um enigma: o amor acaba? Termina como tudo o mais,

como a própria morte visitando a vida? A finitude está mesmo

presente em tudo o que se refere ao ser humano? E compreendi:

decididamente ele pode acabar sim. Culturalmente a eternidade do

amor parece não sofrer nenhum embate. Concebemos esse

sentimento como se ele estivesse além de nós mesmos. Mas não é a

realidade. O amor assim como qualquer outro feito humano está

fadado ao fim. Mais uma vez a questão não é o amor. Mas o que nós

pensamos entender disso. Concebemos a idéia de eterno para algo

efêmero. Não que ele não possa durar a vida de uma pessoa, mas

nem sempre é assim. E no meu caso, acabou sim. E meu maior

sofrimento foi a sensação de estragar o perfeito, de fracassar diante

diziam que é no silêncio que ocorre a grandeSilenciando do mundo, pude compreender algo que46

do meu maior querer. Mas podemos ludibriar nossos sentimentos?

Como convencer meus sentimentos que eles estão errados? Não se

pode fazer isso. Exceto se você se anular para o resto da vida. E

muitos o fazem. Mas não foi o meu caso. Depois da culpa de não

sentir mais nada, porque eu me perguntava sempre: como posso não

sentir mais nada por essa pessoa? Ela me parece um estrangeiro, um

anônimo…Cadê aquele meu sentimento? Cadê aquela vontade,

aquele desejo? Doente. Achei que estivesse muito doente mesmo.

Tinha de haver algo de muito errado comigo. Talvez fosse a queda

nos hormônios que comprometeram minha

estresse, essa vida louca da metrópole. Talvez a ausência de tempo,

tão comum nos dias de hoje e que é a causa de tantos desencontros.

Desculpas. Só mais tarde compreendi. O problema não era o outro.

Era eu mesmo. O inferno não era o outro. Eu era meu próprio inferno.

libido. Talvez fosse oParmênides

instante. Ora somos e ora não somos. E nossa pretensão é sempre

ser e não-ser simultaneamente. Estamos e não estamos, mas em

tempos diferentes. Porque deixei de sentir e de querer, um grande

fardo se colocou nas minhas costas. Desci ao inferno. E não como fez

escreveu que não podemos ser e não ser no mesmoOrfeu

Nem foram como os diabinhos

mesmo. Como um personagem angustiado de

procurava um sopro de paz. Inquieto como um animal feroz

trancafiado numa jaula, minha alma se agitava querendo a liberdade.

Não havia mais o que fazer. Era partir, ou me deixar levar num

imobilismo rumo à morte. Agora eu realmente compreendia o que

para buscar Eurídice. A minha estadia não foi nada romântica.socráticos. Eles me atormentaramDostoievski, euNietzsche

queria dizer quando falava dos nossos instintos vitais.47

Queremos racionalizar tudo com a pretensão de dominar o todo. Mas

isso, infelizmente não é possível. E sofremos porque não aceitamos

ou não queremos aceitar o que a vida nos pede. Acreditamos que a

consciência e somente ela possui a verdade das coisas. Negamos

nossos instintos porque acreditamos que não podemos neles confiar.

Aceito como verdade absoluta uma equação matemática, mas sou

incapaz de aceitar meus sentimentos. Essa é uma lógica perversa.

Negar essa lógica é fazer um manifesto à vida e aos nossos quereres.

Foi o que fiz. Virei às costas para a morte e resolvi viver o pouco que

ainda me resta. Porque a incerteza da vida é melhor que a certeza da

morte. E pensar que tudo começou com um olhar. Um outro olhar, na

verdade. Uma espécie de estranhamento se colocou. As peças que

me pareciam encaixadas foram uma a uma se misturando. Eu já não

reconhecia as coisas e também não me reconhecia nelas.

Camusdizia que

que eu pensava e acreditava saber e sentir desapareceram.

mundo caiu

que até então me pareciam indestrutíveis. Ledo engano. A redoma de

vidro, era de vidro mesmo. A crença de

nada permanece, fazia sentido. As coisas mudam, nós mudamos.

Surge quase sempre um descompasso nessas mudanças. As

temporalidades das pessoas nem sempre são as mesmas. Os desejos

deixam de ser os mesmos, as necessidades se sobrepõem umas as

outras e dividir esse processo todo nem sempre é fácil. E com isso

aparecem as rupturas. As diferenças afloram de tal maneira que se

tornam impossíveis de contornar. É a vida se manifestando. E com ela

o sofrimento pela não realização do que idealizamos. O mundo

um mundo conhecido era um mundo seguro. Tudo aquiloMeu, como cantava Maysa. Era preciso reconstruir os cenáriosHeráclito que dizia tudo flui,48

inteligível de Platão não se sustenta. Sonhos, planos, projetos, futuro,

não fazem mais sentido. O sentido foi, na verdade, redirecionado. A

emoção e o desejo se perderam em algum momento, em algum lugar.

E isso não se reconstrói.

desmedida. Tento desesperadamente resgatar lembranças,

momentos. Mas tudo é vazio. Nada parece me comover mais. As

recordações são somente pedaços desconexos de imagens. Tento

reconstruir a imagem do outro. Mas aparece somente uma caricatura,

um simulacro. Dessacralizei o outro. E uma imagem pífia e profana

surgiu. E pulverizei o mito. No livro

artistas por reproduzirem imagens do real e confundirem as pessoas

que não dissociavam mais o real do não-real. E sei que foi isso que

me acometeu. Um dia a imagem se esvaiu revelando sua essência. E

percebi que tudo não passara de um grande engano. Triste

constatação. Mas necessária nesse processo. A imagem do outro,

agora me era real. O encanto havia sido quebrado. Parecia que eu

estava jogando com a morte.

Nenhuma criatura tem essa capacidade. Ela ceifa a vida e não há

nada que possamos fazer. Algo morreu em mim. A imagem do outro é

apenas uma paródia dela mesma. Juntar pedaços e reconstruir me foi

impossível. Restou apenas uma idéia do que parece ter sido um dia.

Ecos de um passado que me pareceu distante demais. Era preciso

olhar em outra direção. Mesmo cego momentaneamente eu precisava

reaprender a ver. Novos signos, novos símbolos. E novas

sacralizações. E foi o que fiz. Foi tão somente o começo de alguma

coisa que em certa medida parecia apontar para um final já

anunciando. Hegel dizia que

C’est la vie. Cresce uma angústiaA República, Platão expulsa osSétimo Selo. Ninguém ganha da morte.tudo que nasce porta consigo o germe49

da sua própria destruição

da metafísica. A dinâmica incontestável da vida. E a vida, ao contrário

do que cremos, não espera. Nós é que por inúmeros motivos ficamos

pelo caminho. E isso não foi diferente. Acreditamos amar para sempre,

mas como cantava Cássia Eller…

sempre acaba.

fim. Talvez a relação que estabelecemos, de certa maneira, seja com

a própria morte. A nossa mesmo. O fim inevitável por estar vivo. É

ruim aceitar que um dia seremos apenas uma vaga lembrança. Talvez

apenas uma foto amarelada em um porta-retrato qualquer. E depois

ainda, o nada. Talvez o pessimismo de

alguma razão de ser. Ou mesmo a paz no inferno como queria

. A dialética necessária, anunciando o fimsem saber que o prá sempre,E nessa desmedida vivência, ficamos pasmos com oSchopenhauer tenha mesmoRimbaud.

cruzada humana pela vida.

nossa capacidade de fazer e desfazer, de destruir e construir. E era a

tão sonhada esperança de superarmos as diversas mortes que

morremos cotidianamente. Estamos sempre perdendo algo, ou

algumas coisas estão sempre se perdendo de nós. E temos de nos

refazer continuamente para poder continuar. Somos sim essa

ambigüidade. Uma ambigüidade que porta uma negação necessária

que nos mantém em movimento constante. Como é triste essa

subjetividade. E solitária.

solidão…

também? Que cantar seria esse senão o desespero solitário de um ser

pelo outro? A solidão insuportável que consome em nós, nossa

essência. Mas eu teria mesmo que cantar outros cantos. E foi um

cantar choroso, mas necessário. Virar a página e continuar a escrever

Mas renascer, para além da mitologia, faz parte dessaFênix representou argutamente essaOntem ao luar, nós dois em plenaserá que o poeta Catulo da Paixão Cearense viveu isso50

a vida e suas coisas foi o mais assustador. Não me sentia capaz disso

nem de mais nada. Mas não abdiquei dessa saga. E continuei,

solitariamente, tentando encontrar novos caminhos. Lembrei de

Nietzsche

onde voltar. E não ter para onde voltar é a quebra da identidade.

Quando pequeno eu voltava correndo da escola porque tinha medo de

não achar mais minha casa. O medo é que ela tivesse desaparecido

com tudo o que eu amava e conhecia. Medo infantil e, no entanto, real.

Mas eu tinha que continuar. Como um

precisava desesperadamente de um lampejo para seguir em frente.

Nau dos Insensatos…

fantasmas e por todos os demônios inimagináveis me lancei mundo

afora. Buscando encontrar um

de uma noite de verão. Mas era preciso continuar sonhando. A idéia

de construção é o que nos impele a olhar o futuro e a desejar uma vez

mais.

A névoa espessa da incerteza aos poucos foi se dissipando. Parecia

que eu caminhava nas praias da

incontáveis cadáveres e seguindo em frente. Não era mais possível

parar e retroceder. Era preciso lutar essa guerra. Nada mais restava.

Um

de sobrevivência mesmo. Tomado de um princípio de

que se intitulava o andarilho. A sina dos que não têm paraEuclides da Cunha, euAimpossível parar. Oprimido pelos meusshangri-lá próprio e necessário. SonhoNormandia no Dia D, pulandoconatus espinosiano tomou conta de mim. Um instinto de autoconservação,Anaximandro, apeíron

luta, não porque tinha forças, mas sim porque era preciso e

necessário.

quis parecer com aquele personagem do

, o infinito primordial das coisas, resisti nessaTanatus ainda não me levaria. Não dessa vez, ainda. NãoJ. Fante em que ele51

descreve assim:

sentado perto da lareira, pegue esse livro e leia devagar…

quando você estiver velho e cinza e cheio de sono eDecidi ser eu mesmo.

52

Os apaixonados estão sós no mundo

Helena, sem você existo… mas não vivo.

Ninguém entendeu nada

mas seus olhos continuaram ali

a me olhar.

Era como tomar chuva na praia.

Águas,

incerteza de terra.

Uma lágrima

pingou quente num rosto frio.

Era saudade.

A paixão é a doença de uma única dor. E é uma dor solitária,

intransferível e que nos parece ser tão longa quanto a mais longa das

vidas. E a paixão é a dor de se querer notado pelo outro. Quando

correspondida, ficamos angelicalmente num céu. Quando não, instalase

o inferno. Muito superior ao

decodificar, no outro, sinais de acesso, signos de aceitação. Eu quero

o outro e quero que o outro me queira também. Essa é sempre a

vontade do apaixonado. Mas nem tudo é essa racionalização. Essa

inferno de Dante. Procuramos sempre53

equação nos é tão estranha quanto aquela escrita em 1905 por

Einstein

pensam e desejariam muitos, não depende de coordenadas e nem de

quereres voluntários. Olhar e querer alguém ainda é um dos grandes

mistérios do existir humano. Buscar a chave disso é o mesmo que

tentar entender os mitos de origem. O fato é que vi, gostei e algo

mudou prá sempre na minha vida. E aí nasce uma história. Na

verdade, uma aventura, pois não sabemos os seus desdobramentos.

Um enigma vivenciado por todos e quase que chorado pela maioria

das pessoas.

Lembro-me quando te vi pela primeira vez. O mundo pareceu parar

para eu te olhar. Algo em você me fez eclodir em desejos. Não sei se

foi o jeito, o olhar, o sorriso, o cabelo, ou

tudo isso junto ou ainda nada disso e apenas alguma coisa que não

consegui precisar. O fato é que não consegui mais ser eu mesmo. A

sensação foi a de um ser primitivo perante a materialização de um

mito. Fiquei paralisado. O teu andar não era um simples andar, o teu

riso não era um simples riso, o teu ser não era um simples ser. E por

me parecer outra coisa para além do humano, eu me apaixonei. E

passei a ser miserável de você. Uma miséria que me deixava em

farrapos emocionais e que nada supria. Era você e nada mais. Um

vazio para além do vazio existencial constitutivo do ser sartreano se

apossou do meu querer. Um vazio que

existir, que é parte integrante de qualquer ser humano. Tudo num

repente tornou-se cinzento. O colorido extremo da

aparecia quando você ali estava. E eu seguia minha vida fazendo

apenas o trivial para me manter vivo. Sua ausência doía na alma e no

, que relativizou tudo. Apaixonar-se, ao contrário do queSartre dizia ser do simplespop-arte 54

corpo também. Era uma dor real. E isso me assustava. Você passou a

ser o bálsamo da cura. Lembrei do

em que Salomão e a escrava Sulamita descreviam-se. Não era uma

descrição burocrática era, na verdade, o olhar solitário dos

apaixonados. Um encantamento acima de qualquer possibilidade

humana. Uma força que nos faz esquecer de nós mesmos.

com os beijos de sua boca/porque melhor é o teu amor do que o

vinho…

o inigualável; dizer o indizível; nominar o inominável. Tarefa árdua e

impossível tal qual o suplício de

impossível de tocar e experimentar.

E morremos de fome e sede diante daquele que é o nosso alimento.

Tudo fazemos e nada parece nos satisfazer ou preencher. Sempre

nos parece uma ausência. E é mesmo. Ficamos presos nas teias

tecidas pelo nosso desejo. A vida não deseja outra coisa. E o medo

parece ser o companheiro constante. Medo de tudo e de todos. E um

medo de estragar essa morte que consiste no próprio vazio do ser

apaixonado. E um medo maior ainda de perder para sempre a vida.

Porque o outro é vida, porque é a luz que aquece meu sombrio

cotidiano.

Apaixonar-se é isolar-se. O mundo não entende, as pessoas não

compreendem, a vida não espera. Somente três rituais de passagem

na vida humana são completamente solitários: nascer, morrer e se

apaixonar. Incompreendidos, caminhamos solitariamente entre os

mortais. E nessa solidão vejo apenas o outro. Em tudo que faço e nas

coisas que deixo de fazer também. Possuído por sensações até então

estranhas ao meu ser, visualizo representações imaginárias que

Cântico dos Cânticos e a emoçãoBeija-meÉ o início de uma saga afetiva. Algo em que tentamos igualarTântalo: vemos, mas nos é55

parecem satisfazer momentaneamente essa enorme angústia. O outro

é a supressão da minha necessidade. E necessito de vida. E ele é a

vida. Por onde olho eu o vejo. Como o sublime em

fantástico se desenha em meus olhos e em todos os meus sentidos. E

me é impossível perceber e me ater em outras coisas. É um incômodo

que aflora numa tristeza constante. A sua beleza invade meu querer e

eu só quero você. Imagino como a deusa

Olimpo. A tristeza em ser rejeitada o tempo todo. É assim que me

sinto. Todo apaixonado, me parece, tem um pouco de Penúria em si.

Essa miséria que aflora minha existência. É uma miséria tão grande

que nem a beleza de

Porque não quero qualquer outra beleza. É a sua beleza que desejo e

anseio. Um certo narcisismo toma conta de mim. Não consigo pensar

além disso. Vi em você algo surpreendente que não consigo

mensurar. E nem dizê-lo. Sou um poeta sem palavras. Como é

possível conhecer um monte de gente e querer só uma? Tentei me

afastar para não continuar querendo, para não sofrer dessa maneira.

Mas cada vez mais o meu desejo emaranhou-se com minha vontade e

fui vencido. Queria poder descer dessa solidão. Estar apaixonado é

morrer um pouco a cada dia. A sensação é de ser o protagonista do

filme

esperança à vista para refazer a vida de outra maneira.

Kant. AlgoPenúria deveria sentir-se noAfrodite ou de Apolo conseguiria amenizar.Jonhy Vai à Guerra. Mutilado e destroçado dia a dia. NenhumaParis, Texas.Campos longos e desertos, sem nada para se olhar exceto o próprio

nada no horizonte. Sem você é uma vida sem vida. A paixão é a

manifestação da loucura humana tão pontuada por gestos solenes e

civilizatórios. A paixão nos expulsa momentaneamente do convívio

solícito com outras pessoas. Porque as outras pessoas não

56

representam mais nada. Fico totalmente indiferente ao mundo e as

coisas do mundo. Vou vivendo por aí, por viver. Paciencioso como

eu espero, espero e espero. Sou um ser da espera. Mas essa espera

revela a fragilidade em que me encontro. Mesmo assim não desisto.

Sigo em frente movido pela força propulsora de

chegou com o vento que passou. Mas os cenários são artificiais como

no filme

apenas cenários que construo e destruo para poder tê-la nas imagens

surreais em que me apego para continuar. A sua onipresença se faz

incessantemente em cada pedaço de espaço em que piso. Parece-me

uma condenação solitária. Tal como o anjo em

renuncia sua imortalidade para sentir e viver o que de mais intenso

possui o ser humano. E ele fez o que tinha que fazer. E eu também.

Assim como Teresa D’Avila eu vivo uma busca constante: você. E te

encontrar é cair em êxtase total. O apaixonado vive o outro como um

acontecimento mítico e místico. Daí a sacralidade que aflora. Tudo o

mais torna-se profano, sem importância. Como

vento nas escarpas do Adriático: a sacralização do vento varrendo o

cotidiano profano para longe de si mesmo. O outro é essa

sacralização porque condensa sensualidade e espiritualidade numa

junção onde uma complementa a outra. Não há diferença para o

apaixonado. O ser amado é uma única coisa. É o universal e não o

particular; é o todo e não a relatividade. Daí a sensação de

completude. Quando o vejo, enxergo algo que nenhum outro humano

possui. Há um apelo constante de bem estar. É o meu porto seguro.

Ele representa a segurança dos meus inseguros sentimentos. Como

cantava

,Eros. Teu cheiroDaunbailó belos, precisos, exuberantes, porém irreais. SãoAsas do Desejo, queRilke ao descrever oBelchior: vede o pé de Ypê, apenasmente flora. Porque ele57

simplesmente existe na minha vida. E esse existir é suficiente para me

fazer continuar a querê-lo. E quanto mais o quero, mais cenários são

necessários para dar vazão ao ímpeto do desejo. Signos e sinais que

me fazem querer mais e mais. Como a personagem de

um amor louco

mesmo por instantes, uma imensa tristeza se instala em meu ser. É a

solidão. E o medo inenarrável do esquecimento. Como em

Paradiso,

Esquecer é sepultar o outro. E a luta do apaixonado é ser lembrado o

tempo todo. Não por acaso, os gregos criaram uma deusa para a

memória: Minemosyne. Era ela a responsável para que as coisas não

se perdessem no esquecimento. Porque para o apaixonado, qualquer

maneira de lembrança do outro, é suficiente para mantê-lo em

movimento. São sinais que o fazem continuar sua saga. Apaixonar-se

é correr riscos. Não há precisão alguma, não há caminho algum

planejado, não há certeza de nada. É preciso coragem de se permitir

trilhar essa estrada. As nossas tão preciosas certezas, construídas ao

longo da vida, são postas à prova em todos os instantes. Mas

dizia

se ausenta. Esse não tem perdão

corajoso. Porque ele enfrentará as conseqüências dos seus desejos. É

um querer que supera o medo, a vida organizada e as verdades

construídas. É a luta de um contra todos. E não se trata de um ato

heróico, pois para o apaixonado é apenas um fazer necessário. Não

somos e nem seremos heróis de nada. Somos as nossas escolhas.

Escolher e ser escolhido são o grande paradoxo do viver humano. E

toda escolha é solitária mesmo. Por mais influências sociais que

Crônica de, eu faço tudo para ser notado. E quando esquecido,Cinemaa ausência de lembrança é a morte dos personagens., comoVinícius de Moraes, a maior solidão de um ser, é a do ser que. O apaixonado é, antes de tudo,58

recebemos e trocamos, sabemos que somos os protagonistas. E são

essas decisões que nos fazem mudar a direção do nosso olhar sobre

as coisas. E algumas vezes as coisas recaem sobre nós como no

filme

não escolhemos, trata-se de uma escolha. Não há saída.

Cidade Aberta

nossas, mas sofremos a influência disso. Quando cravei meus olhos

nos seus, percebi que não haveria volta. Era inútil lutar contra os meus

desejos. Eu sabia que nunca mais seria o mesmo. E o medo e a

solidão se fizeram presente. Mas como combater a si mesmo? Somos

treinados para enfrentar os outros. Não fui educado para me enfrentar.

E o meu querer saiu vencedor. E como escreveu

21 gramas. Mas não existe o viver sem escolher. Mesmo quandoRoma,, nos mostrou isso. As escolhas podem não seremFlorbela Espanca:Longe de ti são ermos os caminhos/Longe de ti não há luar nem

rosas/Longe de ti há noites silenciosas/Há dias sem calor, beirais sem

ninhos…

Quando te percebi pelos meus olhos, eu sabia que era tarde para não

olhar. Que não teria como voltar ao instante anterior. Um instante

anterior vazio, mas tranqüilo. Por isso me senti sacudido por uma

espécie de vendaval. Se eu tivesse olhado para outra pessoa, outro

lugar… mas a história não se faz com a preposição “se”. Poderíamos

pensar “se Hitler não tivesse invadido a URSS, o que teria

acontecido?” Impossível saber. Porque o que temos são os fatos e

contra esses não há argumentos. Olhar você mudou minha história. E

me é impossível dizê-la sem você. Talvez eu seja mesmo um tolo

romântico e não haja espaço nessa sociedade utilitarista para o que

sinto e como sinto por você. Mas não me importo com isso. Sei que o

que sinto deve ser maior que qualquer compêndio ou teoria sobre a

É assim que me sinto quando você não está por perto.59

vida. Não é preciso me dizer como viver, o que sentir, como sentir, o

que gostar, como gostar. Nada disso pode e deve ser externo ao que

sentimos e queremos. Nisso reside nossa rebeldia, nossa resistência.

Sentados sobre suas leis e regras, a maioria é muito infeliz. Não vivem

a vida, vegetam em torno da ordem pré-estabelecida, acreditando

piamente que vivem. A paixão é um demônio, como dizia

Platão noBanquete

nos faz sentir a vida fluir em cada poro do nosso corpo. E essa vida só

é possível quando nos sentimos tocados pelo outro. É o outro que nos

possibilita ter sensações novas, coisas que até então só conhecíamos

nos livros, filmes e novelas. É como se a ficção se tornasse realidade.

Mas a ficção não nasce de uma realidade? Já cantava

. Ela instaura uma lógica-outra para as mesmas coisas. ETom Jobim:Vem cá Luiza/me dá tua mão/o teu desejo é o meu desejo/vem me

alucina/dá-me tua boca.

minuciosamente e que me possibilita ir além desse cotidiano. Porque

ao olhar você, a vida me pareceu que valia a pena ser vivida em todos

os instantes e momentos. Tua imagem foi gravada na minha retina e

em tudo o que faço ou vejo você está presente. Você é a presença na

ausência como escrevia

que ele queria dizer com isso. Mas hoje sei. A tua ausência abre um

imenso buraco no meu existir,mas, ao mesmo tempo, a sua presença

é constante. Como escreveu

a ausência é falta/e lastimava, ignorante, a falta/ Hoje não a lastimo/

Não há falta na ausência/ A ausência é um estar em mim/ E sinto-a,

branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços/ que rio e danço e

invento exclamações alegres/porque a ausência/essa ausência

assimilada/ ninguém a rouba mais de mim.

E você me é um poema que tento decifrarLefebvre. Demorei para saber exatamente oDrummond: Por muito tempo achei queE também como cantava A60

Legião

todo –

sensação presencial. E mesmo alimentando em parte essa minha

fome de você, nunca é ou será suficiente. Os apaixonados estão

sempre famintos. Afinal quem nunca experimentou uma sensação de

saudade mesmo estando ao lado do outro? Parece-me ser uma

espécie de loucura, transitória ou não. Uma inquietude que não se

aquieta, renovando-se incessantemente através dos tempos. Não

pensar em você é o mesmo que deixar de existir por um momento. A

suspensão da vida e tudo o que ela possa representar. Mas

apaixonar-se também tem outro lado. É por meio dessa vivência que

sabemos de nós mesmos. Do que somos capazes e do que realmente

sentimos. É um se ver continuamente. É se alegrar ao extremo com os

signos e sinais que nos agradem, mas também é sofrer e muito

quando isso não ocorre. É saber-se vivo de uma maneira diferente da

usual. É refazer significados e significantes, é olhar o mesmo e sentir

diferença. É saber. Como se algo escondido há muito tempo, num

repente, se revelasse. Estava cego e vi. E esse ver proporcionou

novos olhares e inúmeras outras sensações. O apaixonado sempre

quer mais. E é um querer que o mantém em movimento constante.

Sem isso, há uma sensação de desfalecimento, de estagnação, de

petrificação do seu ser. Não por acaso dizem que o desejo é a lei do

mundo. Quando desejamos, mas desejamos mesmo, não há nada que

nos impeça de irmos até onde temos de ir. Porque desejo é a vida

manifesta e esta só quer acontecer. E de um jeito ou de outro, ela

acontece. A maior solidão do apaixonado é estar em descompasso de

querer e de tempo com os outros. Somente outro apaixonado pode

: –vai ser difícil eu sem você/ porque você está comigo o tempoEssa tua presença constante é apenas imagética, antes pura61

entender esse desejo e não na mesma medida. Quem está de fora,

procura amenizar racionalmente aquilo que o apaixonado sente. E isso

vira uma espécie de

entende. Isso porque a mensagem vivenciada pelo enamorado não

está em sintonia com o mundo pretensamente estabilizado

racionalmente. Mas todo enamorado sabe bem o que quer, porque

necessita disso para poder continuar existindo. No outro reside à

essência do que ele precisa, assim como os peixes necessitam da

água, os seres vivos, do oxigênio, os pássaros do céu. É essa

necessidade que o impulsiona a viver. A viver o que quer e pretende,

mesmo que, para isso, na maioria dos casos, signifique romper com o

status quo social. O apaixonado vive e convive com essas rupturas

porque sua vontade e seu desejo colidem diretamente com aquilo que

a sociedade aponta como certo. A única certeza que ele possui são

seus sentimentos divorciados da ordem social. Daí a solidão

imperativa, majestática que se estabelece. E esse caminhar solitário é

o que lhe resta. Nada, além disso. A tentativa de sobreviver com

passos indecisos e imprecisos. Não há destino, o que há são

decisões. E cada passo é decisivo nessa trajetória. O que se

estabelece é sempre a dúvida. Para onde e como ir? Mas,

apaixonado, ele segue porque lhe é impossível parar. A vida grita e só

lhe resta obedecê-la. E nasce aí uma resistência difícil de ser

superada. Nada parece dissuadi-lo desse querer. Cada vez que te

vejo, renova em mim os votos desse querer. E te ver não significa sua

presença física. Torno-me capaz de vê-la a todo instante. Caminhando

livremente entre os mortais. Ao vê-la uma luz se acende como se

iluminasse o ator único num palco dessa cidade. Não há nada nem

Torre de Babel; todos falam e ninguém se62

ninguém além de você. O brilho irradiado obscurece o mundo. Meus

olhos brilham e refletem essa luz que emana de você. É a dialética

perfeita entre a luz e a sombra, entre a noite e o dia. E como eu queria

que você soubesse disso. Mas como dizê-lo? E como fazê-la sentir

isso tudo? Infelizmente, me parece ser uma experiência solitária.

Impossível fazer o outro sentir isso tão somente descrevendo. Porque

soa ao outro como uma coisa a mais nesse repertório afetivo. E não é.

É nisso que reside à magia da paixão. A universalização do outro

vencendo as particularidades triviais do cotidiano. É uma sensação

única vivenciada apenas pelos enamorados que sabem e sentem

empiricamente que isso está para além do plano físico, para além da

perenidade do corpo. Por isso, torna-se uma vivência sagrada. Porque

sentimos, num primeiro momento, pela alma. E é essa sensação que

permanece nesse percurso. Por isso, te ver é sempre uma celebração,

uma comemoração da alma, capaz de proporcionar uma forma de

êxtase que só vivenciamos em rituais sagrados. Como diz a música do

Montenegro

estação.

se sente nos assusta também. Afinal, quem não quer o controle

absoluto de tudo e de todos? E o apaixonado sabe que não terá isso.

É um cisma na nossa racionalidade. E tentamos usar das categorias

racionais para explicar, justificar, convencer. Mas é uma luta vã.

Sabemos que são somente coisas paliativas para evitarmos o

inevitável. Vamos caminhando esperando que um dia isso acabe. Mas

podemos e temos a capacidade de impedir os desejos afetivos?

Sabemos que não e, no entanto, insistimos. Travamos uma luta

titânica conosco mesmo. Mas não há vencedor. Ou melhor, a vida

: Será que é trem que passou, ou passou quem ficou naEssa impossibilidade de saber descrever exatamente o que63

sempre vence. E o que me resta é caminhar com ela. E lembrando de

você. O amor é a tendência de possuir o bem para sempre. E o

enamorado não concebe isso de outra maneira. O grande bem

pretendido é o amado. E o amado é a catarse de todos os quereres do

amante. Aglutina ele todos os desejos díspares de todos os tempos e

momentos, vividos ou não, sonhados ou realizados. O amado é a

materialização desses desejos. E sua ausência é a expulsão de tudo o

que queremos e desejamos. Daí o vazio, uma vez mais.

Benjamin

assinaturas das grandes paixões que nos estavam destinadas, mas

nós, os senhores, não estávamos em casa.

que não se nega. Não se recusa. Porque sabe que se o fizer, estará

negando a si próprio, como uma automutilação. E apesar de tudo, ele

se quer inteiro para o outro e também quer o outro inteiro para si. Não

há qualquer outra maneira de negociação. Porque a ausência do outro

se proclama senhorio do seu destino. Sensibilizado, o apaixonado vive

à beira das lágrimas. E por quase nada, desaba ele num desespero. A

existência pela metade o faz lembrar

necessidade de uma parte que parece lhe pertencer. Parecem cenas

que não se constroem nunca na sua universalidade assim como o

enredo de

seu fazer cotidiano. As imagens se fazem e se dispersam num

instante breve. Parece uma tentação, como em

Lutar contra si mesmo, numa tentativa de superar a angústia da

ausência do outro, como única possibilidade de continuar. Quando

emoldurei tua imagem na minha retina, sabia que aquilo era só o

começo de uma sensação que só faria crescer com o tempo. Porque,

Walter, certa vez escreveu que as rugas em nosso rosto são asO apaixonado é aqueleO simposyum, de Platão. A realO Fundo do Coração. Há uma vacância permanente emCoração Satânico.64

por mais que eu tentasse pensar em outras coisas, meu pensamento

voltava para sua imagem, sentada naquela cadeira e olhando,

distraidamente o mundo. E, sem querer, tornou-se uma espécie de

ritual. Sem o meu consentimento, essa imagem surgia e povoava

meus pensamentos, meus sonhos, meus quereres. Não havia o que

fazer. Era conviver com o inevitável. E o inevitável era você. Era como

querer entrar no mar e não se molhar. E, de uma maneira ou outra, eu

te quis desde o primeiro olhar. E eu não estava preparado para isso. A

gente parece mesmo nunca estar. Sonhamos com coisas assim, mas,

platonicamente, montamos o melhor cenário. Nessa situação

idealizada, tudo parece estar dentro de uma ordem. E não só as

coisas, mas nós também. Pensamos sempre que estaremos

preparados e as coisas estarão no seu devido lugar. E, mais ainda,

queremos continuar assim depois de nos apaixonarmos. A paixão é

mesmo um demônio avassalador que quebra a ordem e desestabiliza

qualquer vida. E não é por mal, dizia Aristóteles, é que isso é parte da

sua índole. Senão não seria paixão. Muitas vezes na vida acreditamos

estar apaixonados. Mas não. O encantamento faz isso também. O que

o encantamento não faz é quebrar uma ordem estabelecida. Há,

evidentemente, uma atração também, mas essa fica apenas na

matéria, no corpo, não vai além disto. E nos encantamos inúmeras

vezes na vida.

A paixão, ao contrário do encantamento, é querer a pessoa na sua

totalidade. É a primeira pessoa para quem você quer contar uma

novidade, mostrar algo insólito ou mesmo dividir um momento comum.

É aquela pessoa que você quer que esteja com você em seus sonhos,

em suas viagens, em seus passeios, e em todos os outros lugares.

65

Porque não são as coisas que importam. É a pessoa. Ela faz toda a

diferença em tudo. E o apaixonado sabe e vive isso. Todo apaixonado

atravessa fronteiras. Como um estrangeiro de si mesmo, percorre

caminhos não sabidos e nem conhecidos. A realidade do seu

imaginário é justamente um imaginário real que se apresenta como a

única possibilidade dele existir. Romper com os espaços conhecidos e

adentrar campos nunca pisados passa a ser a sua vida. Similar ao

personagem do filme

somente é preenchido nas raras vezes em que pode observar e ser

observado pelo amado. Nesses breves instantes, ressignifica os

cenários impondo-se novas representações. Abandonado de si, o

apaixonado encontra-se naquela parada de ônibus do filme

Tulipas

pelos filhos e decide não mais voltar para casa, inaugurando uma

nova vida para si mesma. O apaixonado desfaz e refaz sua existência

porque é a única maneira de sentir-se vivo. Ele é o ser da lembrança,

memória prodigiosa para com o amado. Esquecer significa abandonar,

e abandonar resulta na própria morte. Quando te vi caminhando por

aquele corredor iluminado pareceu-me que eu desvelava os segredos

escondidos em todos os recantos remotos do mundo. Alguma coisa se

fez e o instante anterior não teve mais nenhum significado. Parecia

mesmo que nada tivera importância até ali, que as coisas foram

apenas coisas, vazio inexorável até então. Eu não havia mesmo

percebido. O filme mudo e preto e branco que eu vivia ganhou cores e

palavras. E você falava alguma coisa com alguém que caminhava ao

seu lado e sorriu. E esse sorriso mudou a minha vida. E decidi te

esperar. E demorei muito para concatenar porque eu te esperava. E

Morte em Veneza, ele vaga pelo espaço quePão e, em que a dona de casa devotada é esquecida pelo marido e66

só então percebi que essa espera era de mim mesmo. Ao te ver sorrir,

descobri que não poderia seguir mais sozinho e que não poderia

seguir sem você. Era como se eu tivesse voltado para resgatar algo há

muito perdido. A lembrança de algo que se esqueceu ou se pensou ter

vivido. Não sabia ao certo o que era. Mas me tornei prisioneiro

voluntário do seu sorriso. Mas não era apenas pelo sorriso. Hoje sei

disso. Te ver era como viajar turisticamente por um país desconhecido

e sedutor. Uma sensação de “borboletas no estômago” passou a me

acompanhar. Cada ausência tua se tornou um enlutamento. Faminto

de você eu me assemelhava ao vampiro estilizado no clássico filme

Fome de Viver,

existindo, mas sem viver. Intimado pela vida eu te busquei em todo

canto, em cada espaço possível, em todas as lembranças vividas e

em todas aquelas que eu desejava ter. Perdido e sozinho como o

personagem no final de

olhando o mar e sem saber para onde ir. Mas prosseguir é necessário.

E embora não exista um caminho, a vida não espera. Ela força o

enamorado a ir, e eu fui. Não como um herói conquistador, mas

desnudado e fragilizado, miserável de você lembrando apenas do

poema de

caminhos sejam agrestes e escarpados, e quando ele vos envolver

com suas asas, cedei, embora a espada oculta em sua plumagem

possa feri-lo…

vivido por David Bowie: a solidão de continuarSummer of ’42, com uma carta na mão,Gibran: quando o amor vos chamar, segui-o, embora seusE segui por estradas estranhas com sua imagem desenhada em meus

olhos.

67

Anúncios

Sobre Arnoni

Professor de História - Nosso Negócio é fazer história...
Esse post foi publicado em Livros. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s